Heart Attack X
Capitulo X
Sangue & Enxofre
A
coruja esperou o tempo certo, do seu lugar privilegiado podia ver tudo. Então
aquele pequeno camundongo não teve chance, ela o devorou de vez assim que o
sino em sua cabeça avisou que era hora de atacar. Enquanto ela disfrutava seu
lanche noturno, lá mais embaixo vinham carros de todas as partes. Ambulâncias,
viaturas da polícia e os urubus, jornalistas de todo jeito, ansiosos,
faladores, e que não desgrudavam das câmeras ou de seus blocos de anotações.
Todos queriam um pedaço daquela tenebrosa história, não há muito tempo o bairro
fora palco de outro crime, mais uma vez abria suas cortinas para um novo show
que chocava a vizinhança.
Uma
mulher chorava copiosamente nos ombros de uma outra que tinha aparência
agradável e acolhedora, seu rosto era coberto pelos cabelos e suas lagrimas
enxugadas pelo pano do vestido da outra. Um policial jovem tentava conversar
com ela, mas a outra lhe disse para que desse um tempo. Todos os moradores da
casa saíram, os paramédicos e policiais da perícia assim como investigadores
tomavam conta do local. Como sempre com aquelas fitas amarelas e giz no chão,
não usariam tanto giz no cadáver dessa vez...
O
vidro embaçado não escondia quem estava dentro da viatura, cabisbaixo um menino
observava a movimentação dentro e fora da casa. Alguns vizinhos vinham bater no
vidro, sempre com aquela cara estupida de indignação e ódio, nem ao menos
sabiam o que ocorrera, pelo menos não tudo, mas despejavam palavras pejorativas
e socos no vidro. Por duas vezes ele esquivou pensando que o vidro quebraria,
mas não quebrou. Então um policial velhaco se pôs perto do carro, as pessoas
recuaram, mas os olhares ainda ofendiam, ainda perfuravam o consciente de Joe. Carl
parecia mais velho do que a vez anterior, e não passaram mais do que algumas
semanas, estava assustado, mas não queria demonstrar, entrou no carro e olhou
para o menino no banco de trás. Veio-lhe um aperto no coração, lembrou-se da
pequena filha de três anos e do mais velho de doze, seria quase as mesmas
idades dos autores de toda aquela situação arrepiante. Violet desaproximou-se
dos ombros de Ruth e observou o carro do policial levando Joe, olhava tão
friamente que as lagrimas pareciam não fazer parte do contexto.
Ouvia-se
de longe apenas um sussurro exaltado, alguém conversava durante aquela noite.
As vozes duraram alguns minutos até parar. Elizabeth já caminhava, afinal dois
anos e meio já se pode dar os primeiros e muitos passos, ou não. Ela apareceu
no corredor pouco iluminado, estranhamente calada e cambaleante, no rosto
avermelhado escorriam lagrimas. Ela parecia estar tendo uma atitude um tanto
mais madura ali, mas ninguém perceberia, olhou para trás como se algo viesse
atrás dela. Nada. Seus passos curtos e pernas gordas não permitiam com que
fosse mais rápido, mas para onde iria?
Para o quarto da mulher de mãos frias? Claro que não. Para o quarto do
garoto sorridente, é claro, havia alguma esperança em seu olhar perdido. Já
passava pela escada para continuar o corredor no segundo andar quando ele a chutou, ela sentira a forte
pressão nas costas e despencara loucamente escada a baixo.
Suas
pequenas mãos sangravam ao tocar na cabeça desproporcional ao corpo, sentiu as
dores fortes por todo o corpo. Tentou levantar-se mas estava abatida demais,
afinal era apenas um bebê. Ele passou
por ela quando desceu a escada, aliás, passou por cima. Seus olhos graúdos
capturaram aquela figura sombria e mórbida caminhando como o vento, foi
silencioso até a lareira que terminava de queimar alguns troncos cortados.
Alimentou as chamas e pegou o ferro ao lado para ajeitar as coisas, sabe, para
que a chama crescesse. A ponta do ferro ardia superaquecida, ele a tirou de lá e veio-lhe algo em
mente.
Um
ar tranquilo assolava o bairro, a maioria das casas jaziam na escuridão, os
postes tentavam dubiamente iluminar algumas ruas. A antiga casa de Jhon e
Serena estava imponente em sua estrutura sombria, algo aparecera no segundo
andar. As marcas de mãos na janela, um rosto infantil olhava amedrontado para
fora, parecia estar preso, mesmo se gritasse sabia que ninguém ouviria, e sabia
também que ninguém vê-lo-ia, exceto a coisa.
Ela ainda não chorou...
Nem tampouco iria. Seus olhos cresceram ainda mais quando o ferro lhe atingiu
na barriga, maldita, aquela maldita não
tinha nem coragem de vesti-la durante a noite! Tinha a fralda é claro,
sempre descartável e as vezes trocada. Uma marca inflamada e escura logo se
estendeu pela barriga, branca e macia de Elizabeth. O ferro escorregava
queimando e deflagrando partes e partes do seu pequeno corpo. Ela não chorara. Quase não tinha mais
lagrimas. Engatinhou débil pela sala, ele
a seguiu calmo e concentrado, sua velocidade era tão ridícula quanto uma
tartaruga de patas amarradas. Queimou-a nos pés, ela segurou-os com as
mãozinhas. Ele mantinha aquele olhar
constantemente tranquilo e psicopático. O chiado era as vezes prolongado e as
vezes curtos, mas a cada vez que vinha era seguido de mais um terrível chute
que a pouco começara a fazer parte do jogo.
Cada chiado deixava uma marca profunda, algumas vezes ele a abandonava para aquecer a ponta do ferro na lareira.
Duraria
a noite toda se ele não estivesse
ficando entediado. Em algum momento não precisou mais aquecer o ferro, ele
simplesmente avermelhava-se sozinho, como que por uma força sobrenatural. Era tão quente quanto o inferno, a
menina diria se soubesse falar ou se já tivesse ido ao inferno, mas um dos
dois estava acontecendo ali. Quando ele
se afastava ela tentava se arrastar para longe, engatinhava e sentia as
queimaduras dilacerarem a cada rastejo. Suas expressões de dor eram sempre a
mesma, as lagrimas pararam, seus olhos secaram, a boca abria-se e parecia que
viria algum grito ou choro, mas não vinha. Ele
a puxava pelo pé novamente para perto da lareira. Dessa vez em pé, olhou
para a fralda em frangalhos e teve uma ideia maníaca, aproximou o ferro e lhe
perfurou a coxa próximo a virilha. Sorriu. Um misto de ânimo e diversão
pervertida lhe ocorreu. Queimou-a na outra virilha. Ela ainda não gritara, mas
a boca parecia que ia rasgar de tão aberta em algum momento. Ele a perfurou no local onde as mulheres
dizem ser mais sensível, perfurou com aquele troço de ferro que agora estava
frio e a penetrava. Parou antes de vara-la de um lado a outro, ter aquilo
frio e grotesco dentro de si já gerava dor e desconforto o suficiente para uma
pessoa preferir a morte, mas a coisa começou a aquecer dentro dela.
Ele sorria
exalando um prazer inumano, sua mão segurava aquela arma de tortura simplória e
cruel. A criança a sua frente se contorcia de um lado a outro. Parecia um
daqueles meninos que se diverte a enfiar gravetos em cadáveres de bichos
mortos, a deflora-los e queima-los quando ninguém via; mas Elizabeth não era um
bicho, nem tampouco estava morta. O que a mantinha viva? Ele retirou o ferro trazendo consigo sangue e pedaços de carne das
genitais do bebê.
Andrew
a pegou no colo, como um bom irmão a fez ninar, Elizabeth sentiu as feridas do
corpo aumentarem enormemente, ela finalmente berrou. Dela saiu um grito
gutural, jamais seria dito que era de uma criança, muito menos de um bebê.
Andrew a segurou a sua frente, com o corpo aos frangalhos e desfigurado, tenebroso, jogou-a na lareira que
aumentara instantaneamente dez vezes mais e a consumira. Ela gritava e
contorcia-se.
Joe
parara na metade da escada e não pode reagir ao que vira. Seu irmão jogara sua
irmã no fogo, a observava queimar e gritar com voz que jamais poderia
distinguir e dar para uma criança. Seu rosto empalidecera e ele caíra sentado
na escada em estado de coque. Andrew olhara para o rosto em chamas de
Elizabeth, que inumanamente ainda estava viva, falou: Adeus Wendy. Virou as costas e o coração da menina parou, seu corpo
fora totalmente consumido e o fogo cessou, restando apenas restos de ossos e
cinzas. Ele passou pela escada ao lado do irmão.
¾
Boa sorte. – disse seguindo para o outro
andar.
Joe
chorava descontroladamente quando a polícia chegou, suas mãos cobertas de
sangue o denunciaram e ele foi preso. Andrew observava tudo sentado no bosque
do outro lado da rua. Violet choramingava no ombro de Ruth. O ar da noite
cheirava a sangue e enxofre, algo tão terrível assolaria os sonhos dos
moradores daquele quieto bairro, e logo mais de todos os que vissem o principal
jornal na TV, e a primeira página dos impressos.
W. P. Lobo
CONTINUA




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