Canto Da Gente


capitulo iii
outono DO DESAPEGO
Ethel estava sentada naquela praça há bem uns quarenta minutos, já estava na hora de ela aceitar que ele não viria. Por que não aproveitar então a presença das crianças brincando, das donas de casa conversando, do senhor ao seu lado que lia jornal? Que mal lhe faria se aproveitasse a vida sem Elias. Sua mãe falara tantas vezes, ele só se preocupa consigo mesmo Ethel. Ela não ouvira, não ouvira ninguém; nem mesmo a pobre Jennie escapara da sua fúria quando ousou dar-lhe um conselho. Jennie era irmã de Elias. Pois bem, agora ela recordara de cada palavra. Quantas brigas teve com ele? Muitas, não queria mais aquilo, não sofreria mais por alguém que jamais a entenderia ou nem mesmo tentava. Estava disposta a larga-lo, afinal, eram namorados há uns quatro anos e o desgraçado nem ousara falar em casamento. Ethel levantou-se e partiu. As folhas caiam das árvores, alguns moleques até tentavam aparar as que ainda caiam. Diziam que isso dava sorte. Ethel passou entre eles, uma folha lhe caiu no ombro. Ela apenas sorriu e tirou-a dali.
Maldita casa! Dany estava cansada daquela barulheira, das torneiras pingando, das manchas nas paredes. Ela e o marido reformaram toda a residência e mesmo assim, mesmo assim os problemas não a deixavam. Então, o que fazer? É claro, outra pessoa logo se livraria da casa e compraria uma três vezes melhor num bairro melhor. Mas era a antiga casa onde cresceu, guardava recordações em todos os cantos. Fazia naquele dia 40 dias que Amélia morrera, Dany ainda não soubera aceitar que fora uma péssima ideia ir morar ali. No momento da perda a única coisa que ela pensara fora em ficar perto das coisas da mãe, afinal ela só tinha a mãe. O pai morrera quinze anos antes. Nem mesmo vira os netos da única filha. Agora Dany estava pensando mais, logicamente pelo menos, sentou-se naquela velha cadeira de balanço na frente da casa. Ali podia pensar, quieta no bairro quase desértico, seria ótimo se não fosse pelo maldito vizinho que chegava bêbado e resolvia que todos os ouvidos eram dele, assim ouviriam sua música. Ela esperaria o marido chegar, então decidiria de vez.
André fora embora há 47 dias, Fabricio até tentara falar com o amigo mas era um pouco complicado, digamos que as agendas não se batiam. Eles ainda estavam no ensino fundamental, quase terminando pra ser exato. Ambos tinham quatorze anos. André fora com os pais morar no Canadá, pois o pai dele conseguira uma boa proposta de emprego pra lá. Desde sua ida Fabricio não se comunicara mais com ele. Parecia que todos aqueles momentos de molecagem tinham ido também, sim André era o que se poderia considerar um verdadeiro amigo para todas as horas. Então, os outros, os colegas esses estavam mais preocupados com suas vidas, seus problemas. Não havia mais aquelas loucuras com skates, nem as voltas pelo bairro de bicicleta, nem as idas ao shopping as vezes só para andar e conversar mesmo. André estava de namoro com Amanda quando partira, a coitada sumira da escola durante três dias depois que André terminara com ela. As palavras do amigo para Fabricio fora que a distância não impediria que eles falassem sobre as besteiras de sempre, ele estava enganado. Fabricio acabara de sair do colégio, encontrara com Gabriel na saída. Gabriel era um cara legal, apesar do complexo por tecnologias, era meio difícil conversar com ele sobre coisas da vida. Eles se conheceram ainda no começo daquele semestre, era aluno novo na escola. Fabricio por um instante parara de querer os momentos com André, por um instante esquecera. Era hora de deixar que as coisas andassem, que a vida prosseguisse.
Ele esquecera, realmente esquecera que tinha um compromisso com Ethel. Elias olhou no relógio e sabia que era tarde demais, aquela fora a gota d’água no relacionamento. Mas o que ele poderia fazer? Chamaram ele no escritório e ele teve de ir a uma conferência. De certa forma já estava cansado de Ethel reclamando de tudo, seria bom pra ele dar um fim logo em tudo. Pensava naquilo quando recebera o comunicado de sua despensa em cinco dias. Trabalhara na empresa por tanto tempo e agora queriam se livrar dele. Era o que pensava. Elias já sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde, dessa vez fora cedo. A empresa estava quase falida, por sorte dele já estava se preparando pra isso. Assim que saísse dali trabalharia pra concorrente. Seria um pouco triste para seus colegas que não tinham uma mente tão preventiva quanto a dele.
Melissa finalmente entendeu, Johana estava de namoro com Felipe. Era óbvio demais, talvez ela não quisera aceitar de primeira. A sua tão querida namorada, recentemente assumida de sua sexualidade, resolver deixa-la e se empurrar de volta no armário. Maldita, Melissa gostava realmente dela. Chegara em casa por volta das 16h da tarde, nem prestara atenção na mãe que estava na varanda. Trancou-se no quarto e resolvera fazer do travesseiro saco de pancada, por um breve vislumbre viu o rosto de Johana ali. Socou mais forte. Então, desistira, atirou-se na cama e esperou que toda aquela raiva e magoa partisse, juntamente com os sentimentos pela traidora. Pegou na bolsa o celular e ligou para Amanda, ela era sua melhor amiga. Sentia pela perda da amiga, Amanda sempre fora dramática, mas dessa vez se superara por causa de André. Melissa ficou ali no quarto ouvindo os lamentos da amiga e por um instante esquecera a maldita. Foi quando vieram bater no seu quarto, estava bem distraída aliás, tomara um susto e pulara da cama. Era sua mãe lhe chamando pro jantar, ficara ali trancada tanto tempo que não percebera que já anoitecera. Sairiam a um restaurante naquela noite.
Vicent saíra do escritório direto para o restaurante. Não passaria em casa, a esposa tinha o péssimo costume de abandona-lo em frente à casa, então os encontraria lá. Quem naquela noite conversasse com ela sobre uma possível mudança, ele não gostara da casa onde estavam nem mesmo quando a velha rabugenta da mãe dela estava viva. Agora, era obrigado a morar nela. Cedeu de sua vontade mais uma vez para que a mulher vivesse mais um momento de ilusão, daria um basta naquilo. Estava na hora de tomar suas decisões e que a esposa concordasse também com suas vontades. Algumas vezes o tolo é tolo por deixar ser tolo dos tolos.
Elias chegara ao restaurante, lá encontrara-se com o irmão, Vicent. Já iam tomar umas cervejas quando seu celular tocou. Uma mensagem, dizia: Idiota! Espero que aproveite essa tua vida egoísta. Não fale nunca mais comigo! Ele então pensara por cinco segundos no que lera. Vicent o observava, então perguntou se era Ethel. Ele dissera que não, então apagara a mensagem, fora nos contatos e apagara o número dela. Os dois ficaram conversando e até esqueceram das cervejas, falavam do novo emprego de Elias. Então Dany chegara com Melissa emburrada e Fabricio indiferente. Sentaram-se à mesa, o restaurante por demais cultural dispunha de uma mesa baixa e almofadas para se sentarem. Os balões com letras japonesas ficavam no teto a iluminar suavemente o local.
Dany falara, não quero mais morar naquela maldita casa. Por pouco Vicent não suspirara. Parecia que seus sonhos estavam se tornando realidade, poderiam ir para um lugar melhor e mais aconchegante. Os filhos poderiam até quem sabe estudar numa escola mais próxima de onde iam morar. Ele estava sonhando novamente. Elias entendera o olhar esperançoso do irmão, jamais iria passar pela situação dele, pois nem mesmo num altar pisaria sem que o obrigassem dentro de um caixão. Dany estava ao lado de Vicent, aproximara sua almofada e o abraçara contando-lhe aos ouvidos alguns dos seus novos sonhos da casa nova, Vicent a ouviu compassivo e percebeu, os sonhos dela eram parecidos com os dele. Fabricio se animara, mas resolvera demonstrar. Melissa dera de ombros, quem sabe seria uma boa oportunidade de ficar longe de Johana e seu namoradinho. Estavam tranquilos naquela noite, comeram e beberam pensando no que deixaram para trás e no que isso colaborara para que vivessem melhor.
Ethel caminhava como sempre pela avenida próxima a sua casa, aquela roupa sua comum de caminhada. Nem muito chamativa e nem muito recatada. O ar da noite, frio e tranquilo, naquela avenida a deixava mais leve apesar do cansaço de ter corrido quase um quilometro. Parecia querer deixar todas as coisas pra trás de si e apenas correr em frente das desilusões, não pensara em Elias em momento algum. Estava absorta com sua nova decisão. Entraria sozinha em um processo de adoção, queria um filho e estava mais do que na hora. Os planos brilhavam em sua mente, nada vai estragar meus objetivos, nem ninguém. Fora este pensamento que a levara a Elias, lembrou-se quando ele falara de filhos, que jamais teria um, ela entristeceu-se naquela vez, mas agora parecia um pensamento tão distante.



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