Canto Da Gente
capitulo ii
verão da fúria
Isis
voltava do trabalho pela mesma rua que sempre pegava até o ponto de ônibus. O
telefone tocava na bolsa, ela o tirou para atender, era Agiurdas o esposo. Atendeu
já irritada com ele, havia tempo que pedira para ele não telefonar enquanto ela
estivesse no trabalho, mas pelo visto ele não entendia. Ficou três minutos
discutindo com ele, no entanto ela percebeu algo errado. Apesar de todos os
insultos ele não estava respondendo igualmente como sempre fazia, então ela
percebeu que deveria ser algo importante. Tarde demais. Um homem de capuz
esgueirava-se atrás dela.
Alex
acabava de empacotar as compras da cliente no balcão do supermercado, faltava
alguns minutos para fechar. Naquele dia teria um encontro com Willow, ela o
esperava na pizzaria. Marcaram pra depois que ele saísse do trabalho, mas o
chefe pediu para que ele ficasse mais um tempo. Então, obviamente, ela já
estaria lá esperando. Seria um péssimo primeiro encontro, considerando esse
deslize do atraso. Ainda lembrava da primeira vez que a viu, ainda estava
namorando com Betsy, a loira do caixa. Betsy chamava mais atenção do que Willow
com certeza, mas ela era “a melhor pessoa do mundo” para ele que estava apaixonado.
Terminara com a pobre Betsy dois dias antes e já estava dando foco ao novo
relacionamento. Teve de insistir bastante para a recatada Willow aceitar sair
com ele. Conhecera naquele dia essa que o deixou nas alturas, naquele dia
enquanto saía do trabalho e ia para casa do amigo tomar umas e ver o jogo, ela
era a irmã dele. Recém chegada no país a coitada não entendia nada,
provavelmente fora o irmão que a deixou na pizzaria. Ela teria que ligar de
novo pro irmão caso se irritasse e resolvesse ir embora, mas Alex não ia deixar
isso acontecer.
Não tente segurar o mundo nas costas
Emie! Pensava Emily. As duas filhas estavam na adolescência
e sinceramente Emily já estava por demais estressada com o novo chefe. Chegava
em casa suspirando e já ouvia os gritos lá de fora, nem colocava os pés na casa
e tinha perfeita ideia do que ia enfrentar. Mãe
ela pegou minha roupa! Mãe ela tá me batendo! Olha só o que ela fez! Reclamações
e mais reclamações, mas ELA não podia reclamar. Jofrey como sempre estava de
pernas abertas no sofá assistindo ao jogo, parecia que não ouvia mais nada,
preso no mundo dele. Ela daria um basta naquele mesmo dia, sem mais delongas. Que se fod...
Helen
buscava na farmácia o remédio que o médico receitara para as coceiras da mãe.
Também se não fosse logo mataria a velha com as próprias mãos. Jorge, Heitor e
Cleide a abandonaram com a velha, agora ela se via no meio de um turbilhão de
problemas sem poder falar nada. Que saco!
Pegou bruscamente o embrulho das mãos do atendente e foi-se de volta pra casa.
A velha já dormia pelo menos. Constantino flertava com a enteada, antes de
entrar na cozinha Helen ouviu a voz dele. Estava com aquele tom sinuoso. A
filha tinha 16 anos, estava mais do que preparada para entender o que é certo
ou errado, mas parecia estar muito tranquila com o papo do velho babão. Ela não
entrou de vez onde estavam, ficou ouvindo atrás da parede. Então se calaram,
resolveu entrar de uma vez. Aquela cena demoraria muito para sair de sua mente.
Ele
puxara com tremenda força a bolsa. Isis se espantara e acabara reagindo. Vou
correr e esse idiota não vai levar nada meu! Ela puxara a bolsa de volta
com tamanha força que a mão do homem de capuz veio junto, até ensaiara
mentalmente uma escapada, mas não daria certo. Sentira algo lhe socar nas
costas. Mal ela sabia que não fora só um soco, mas nas mãos do bandido estava
uma faca banhada de sangue. Ele pegara a bolsa enquanto ela caia de joelhos na
calçada. Estranho como nesses momentos as
ruas ficam desertas... ele olhara para ela com pavor, se ela sobrevivesse
iria denuncia-lo começou então uma sessão de chutes que parecia não ter fim.
Ela sabia naquele momento, tinha quase certeza disso, que as pancadas onde a
faca perfurara eram as piores. Fora isso não tinha mais nada em mente além da
dor e do sofrimento que estava passando. Ele era jovem e musculoso, quebraria
suas costelas se continuasse. Então ele se agachou e deferiu-lhe três
punhaladas no peito. Obviamente ela estava inconsciente.
Bethânia
sofrera um repentino derrame, estava dormindo e acordara com as gritarias de
Helen. Sentira o rosto enrugar e se desfazer como cera, então perdera a
consciência. Helen puxava a filha pelos cabelos, essa gritava de dor enquanto
tentava levantar as calças que estavam nos joelhos juntamente com a calcinha.
Constantino se afastara e apenas observava a briga. Vadia! Pra que eu te criei sua vaca! Gritava Helen enquanto
continuava a arrastar a filha pelos cabelos, levou-a até a sala e lá a chutou e
socou até que a menina ficasse numa posição fetal no chão, não reagiu, apesar
de tudo era a sua mãe que lhe batia. Constantino não saíra da cozinha. Helen
voltou lá e o esbofeteou tão forte que quase quebrou a mão, sempre tivera essa
fama de machão mesmo sendo muito delicada, mas pro seu prazer o nariz do safado
escorria sangue. Talvez tenha quebrado...
Helen discursou a cena de novo para ele saber o porquê de tudo aquilo,
estava totalmente indignada. Chegou em casa e encontrou o marido lambendo a porra da buceta da filha, aquela cena
parecia se repetir enquanto ela tentava não pensar em matar os dois. E mesmo
depois de surpreendê-los ainda tivera que ouvir o último gemido de orgasmo
daquela vagabunda, nem mesmo queria parar para pensar que era sua filha. No
fundo, ainda ansiava que fosse apenas delírios e paranoias que a vinham
atormentando nos últimos dias; mas, vendo aquela cena, jamais esqueceria.
Bethânia continuava no chão, seu rosto tornara-se em metade desfigurada e
retorcida.
Jofrey
recebera um belo de um golpe de bolsa nos colhões, Emie nem pensara duas vezes
ao vê-lo de pernas abertas no sofá. Como
em todos os dias... Depois fora para o segundo andar onde encontrou as duas
meninas se atracando pelos cabelos, pegou cada uma e com o cinto que roubara do
marido no quarto acertara em todas as partes que as filhas não protegiam com as
mãos, inclusive as mãos e braços eram as que mais sofriam. Depois de todo
aquele momento ainda teve que aguentar o infeliz a importuna-la por suas ações.
Ela faria aquilo, sem dúvida.
Willow
cansou de esperar, quase derrubara a bandeja de comida que o garçom levava a
outra mesa. Ao invés de pedir desculpas o empurrou e o fez derrubar tudo de
vez, olhou para ele no chão e disse: Olha
por onde anda Imbecil! Foi embora, na saída encontrou Alex que vira tudo
pelas vidraças do local. Ele não dissera nada, apenas deu as costas e fora
embora pelo mesmo caminho que veio. Ela esperneou e gritou, ela ligara minutos
antes pro irmão e ele já estava ali pra leva-la embora.
Helen
discutira intensamente com Constantino, ele até tentara enforcar ela mas pro
azar dele ela era realmente durona e o acertara com um chute entre as pernas.
Sentindo forte dor fora empurrado para fora da casa, Helen esbravejava que
nunca mais queria vê-lo ali e nem perto da filha dela, a garota no calor da
conversa correu pro seu quarto. Quando já ia entrando no corredor viu logo o
quarto de sua avó, lá estava Bethânia como uma estranha figura semimorta no
chão. Lucy dera tamanho grito que acabara trazendo Helen pra onde ela estava.
Constantino resolveu ir mesmo embora enquanto Helen estava mais louca que ele;
provavelmente passaria num bar e ficaria por lá.
Emily
caiu fora de casa, tomou uma malinha e saiu sem dar mais satisfações.
Encontrara um barzinho de esquina e por lá ficara. Tomou umas duas cervejas e
logo enjoou o gosto, foi então que um homem forte mandou para ela uma dose de
uísque. Ela nem imaginava quem ele fosse, e nem porque acreditava que ela
gostava daquela bebida, mas tomou. Ele viera para perto dela e se apresentara
como Constantino. Ela aceitara o convite para ir ao flete dele, dissera sua
situação e ele contara um pouco da dele. Ambos largaram tudo, e minutos depois
estavam sentindo um gozo excepcionalmente novo na cama, como se estivessem
livres para os seus instintos mais selvagens. Ele a tratara pior que uma puta no sexo, e ela aceitara mais que
uma puta.
Isis
sangrava no chão frio, ninguém passara ali durante cinco minutos. Então veio um
rapaz distraído e tropeçou no braço dela, ele olhou de perto e tomou tremendo
susto. Pegara sem jeito o celular e ligara para a ambulância. Para sua surpresa
aquela mulher acordou, para ele estava morta. Então, ela perguntou quem era
ele, ele respondeu: Alex.
Bethânia
já estava indo na ambulância com Helen ao seu lado. Ela deixara a filha em casa
e se preocupara somente com a velha, a velha que a criara melhor do que ela a
filha. De repente sentiu tamanho remorso pelas suas ações como mãe. O motorista
da ambulância pegou um desvio para outra avenida que geralmente era mais calma.
Naquele mesmo momento Alex viu a ambulância de longe, pensara que fora a que
chamou; mas passou direto. Depois de um tempo veio outra, essa era a de Isis.
Alex se despediu ali mesmo e deixou-a aos cuidados dos paramédicos. Que dia estranho.
O’Connor
andava de um lado para outro na sala de emergência. A sua única filha tomara
desinfetante porque pensara que era refrigerante, é claro, o que uma criança de
três anos pode fazer ao ver um liquido dentro de uma garrafinha de
refrigerante? Claro, fora um erro tremendo com consequências tremendas a empregada
colocar desinfetante ali, O’Connor discutira com ela enquanto preparava tudo
para ir ao hospital. Agora estava ali ansioso sem saber o que faziam com sua
filha. Viu uma senhora ser levada para sala de cirurgia, o rosto daquela mulher
jamais sairia de sua mente. Era distorcido e desesperado.
Isis
chegara morta no hospital, perdera muito sangue, isso sem contar as péssimas
avarias em órgãos internos. Passavam-na para uma sala especifica enquanto a
polícia vinha atrás do corpo para averiguar o que havia ocorrido. Alex ligara
pra polícia quando a ambulância partiu, esperara lá mesmo até que viessem.
Então o celular de O’Connor tocou, ele atendeu e era a polícia dizendo que sua
esposa estava no hospital, coincidentemente o mesmo que ele estava com a filha.
Fora para onde estavam os policiais e peritos e recebera a notícia, sua esposa
morrera num assalto. Ele caíra em desespero, talvez perderia as duas pessoas
mais importantes na sua vida. No dia seguinte a filha de O’Connor já se
recuperava numa sala reservada, O’Connor não fazia ideia de quando e como daria
a notícia.
Bethânia
estava numa sala reservada, Helen e Lucy a esperavam acordar. No flete de
Constantino Emie recebia as despedidas dele que a quisera apenas por uma noite,
ela saíra sem rumo, mas não voltaria para casa tão cedo. Na casa dela, Jofrey
queimava-se tentando fazer panquecas enquanto as garotas riam dele. Alex ia
para o trabalho tentando assimilar ainda o que ocorrera na noite passada, as
palavras de Isis ainda rolavam em sua mente... aquilo que ela disse depois de
saber seu nome. Obrigada, por me ajudar
mesmo sem me conhecer...



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