CANTO DA GENTE
Canto da gente
Tudo
tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há
tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que
se plantou;
Tempo
de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
Tempo
de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de saltar;
Tempo
de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se
de abraçar;
Tempo
de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
Tempo
de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo
de amar, e tempo de aborrecer; tempo de guerra, e tempo de paz.
(Eclesiastes
Cap.3 e Vs.1 ao 8)
capitulo i
primavera do livre-ARBÍTRIO
No
brotar de uma flor, no brotar de uma nova ideia para uma brincadeira de
criança, qual pode ser definida como primavera da doce liberdade?
Tobias
acabara de criar um plano no qual todos os primos participariam. Jenny aceitou
de vez assim que ouviu, há quem falasse que a menina tinha tendências a
concordar com tudo que ele falasse. Ela gostava dele. Ambos tinham dez anos, o
que sabiam da vida? Tanto quanto os adultos sobre a existência. Os dois
correram para perto dos outros primos, criariam uma poça d’água e nela
colocariam barquinhos de papel para que parecesse um oceano, a ideia estava
mais para um lago sujo, mas para eles era uma brilhante ideia.
Amanda
corria, corria, corria, sabia que estava correndo contudo não sentia seu corpo,
apenas o cansaço e esse fora o motivo pelo qual decidira pela caminhada. Ela
começara a correr há uns bons cinco minutos, era entediante apenas ficar
andando. Nos fones tocava em som baixo uma melodiosa música, sem canto, assim
ela gostava, por ela, ouviria uma boa sinfonia, mas ela abandonara por um tempo
tudo que tinha haver com música. Ela amava música, tocava violão desde os sete
anos, se apaixonara por piano aos doze e desde então não o largara mais. Estava
numa espécie de desintoxicação do instrumento lírico. Ela ainda não sentira
falta dele, mas pelo contrário nunca se sentira tão bem. Aquela corrida com
certeza fora uma boa ideia, mesmo que tenha sido um conselho do velho Bil, seu
sogro.
Ganbil,
ou Bil para os íntimos, estava sentado na varando da casa. Ele observava os
bois a comer o pasto, seus bichos eram parte de quem ele era. Nunca se vira na
cidade, amava o campo, não sairia de lá nem por um milhão de reais, seu lugar,
seu tudo. Capinava, queimava, arava, cuidava da terra. Sua amiga, sua parceira,
sua fonte de vida. Quando não estava arando nem plantando estava na igreja
local, há uns 20 metros da sua casinha simples mas bonita. Seus familiares
vieram há uma semana, nem ele sabia como todos conseguiram se alojar ali, mas
gostava da companhia deles. Na maior parte do dia ficava sozinho, ele e os
animais, sem pessoas frequentando sua vida ali naquele interior quieto. Terra
boa de plantar e de se estar. Todos os filhos do velho Bil casaram-se e foram
embora, ele ficara, com certeza ficara, há nem mais que quinze anos perdera sua
amada para o câncer. Sua maior fonte de paz fora a Palavra de Deus desde então,
encontrara um refúgio tão perfeito nos braços do Pai Eterno que se apegara a
tudo quanto ele dizia naquele livro, não era fanático, era um fiel e sábio
filho de Deus. Falava de Deus a quem precisasse, mas não insistia caso a pessoa
não quisesse ouvir, mas todos geralmente queriam, ele tinha aquele jeito agradável de confortar os
corações aflitos.
Robert
saíra em busca de um bom rio, lago ou seja lá o que fosse para mergulhar,
Daniel fora com ele. Os irmãos sempre estavam juntos, desde crianças eram assim
unidos. Quando não era Daniel era Francis, mas nessa manhã Francis fora com a
mulher à cidade mais próxima, ia comprar algo para o almoço. Daniel ainda não
casara e nem parecia querer, no fundo aguardava uma mulher com quem se
identificasse o suficiente para compartilhar a vida e, um dia, um filho. Robert
tinha o seu pequeno, Amanda o amava, ela estava caminhando. Mais tarde
sairia com ela para passear pelas redondezas, a coitada era filha da capital,
nunca vira mato em sua vida. Ela ficara tão animada com a viagem, era sua
primeira vez na casa do sogro, decidira ir quando ele não quis sair da sua vida
pacifica para o barulho da cidade. Agora Robert tropeçava em tocos e se
espetava em galhos, mais alguns metros e finalmente dariam de cara com um
igarapé, diziam que era fundo.
Elie
estava tranquila naquela manhã, Francis tivera essa ideia brilhante de juntar
toda família num lugar perto da natureza; agora, Elie, sua esposa estava
contente por se afastar do trabalho, se afastar do que a frustrava. Não que ela
odiasse o emprego, mas não lhe fazia jus. Ela sempre sonhara com uma vida
inteira fazendo aquilo que amava, no entanto, nem sempre professores tem o
retorno ansiado. Assim também com Francis, psicólogo dos renomados, os dois
tinham uma vida calma com trabalhos que lhes causava transtorno. Por isso
fugiram, ok, Elie não aceitava a palavra fugir, então falavam que foram
espairecer ou mesmo tirar as desejadas férias. Durante o caminho inteiro
falavam do quão sossegados estavam, do quão bem dormiram, do quão em paz
estavam. Trazer os dois filhos, Erik e Jenny fora uma ideia brilhante, os dois
pouco se interessavam por coisas da natureza, viviam enfurnados em seus quartos
com seus “brinquedos” tecnológicos. Para surpresa dos dois, que pensavam que os
dois iam se enfurnar em algum lugar procurando área para os celulares e
tablets, eles foram correr por aí (como disse Bil quando os dois sumiram).
Areta
e Jeferson conseguiram aquele tempo para estar com a família, é bom, é sempre
bom estar com as pessoas com as quais cresceu e aprendeu as primeiras coisas na
vida. Os dois pequenos, Fred e John, gostaram da ideia, os filhos do casal não
saiam muito de casa e na maior parte do dia ficavam na escola, seja estudando o
semestre letivo ou mesmo depois quando passavam pelo curso intensivo de inglês.
Eles gostavam e sabiam que isso os ajudaria no futuro, mas era pesado fazer
tanta coisa. John vivia reclamando de não ter tempo para sair com os amigos,
Fred mais reservado reclamava de não ter tempo para os estudos na escola. É
claro, os pais nem mesmo ficavam em casa, a casa era cuidada por diaristas, as
crianças não ficavam também por ali. Então, aquele momento junto, brincando,
correndo ou nada fazendo era ótimo, era quase um milagre. Por isso mesmo que
Areta e Jeferson ataram as redes em dois fortes troncos de árvores e ali ficaram
juntos, conversando, dormindo, tranquilos como nunca estiveram. Até mesmo os
risos das crianças era divertido e tranquilizante.
Areta
quem ficara mais constante na cozinha, adorou os legumes que trouxeram. Não há
muito tempo Daniel e Robert apareceram por ali molhados, contavam histórias de
um tronco que fora confundido com jacaré. Claro, não por eles, o igarapé que
encontraram era livre para visitantes, por isso tinha mais duas pessoas por
ali, uma adolescente e seu irmão, como disseram. Os dois pareciam meio
estabanados, concluiu Daniel, Robert apenas os observava enquanto tentavam nada
ou fazer qualquer coisa que não permanecer na superfície da água. Logo, surgiu
aquele tronco boiando, o garoto mergulhara por trás da coisa e quando voltara a
menina o viu ali atrás e pensou que um jacaré estava a devora-lo. o susto
rendeu boas risadas, até pela grande improbabilidade de haver algo perigoso ali
a ser não eles mesmos. Então Daniel que não estava lá muito afim de ficar pelos
cantos sem nada a fazer correu para cozinha assim que se arrumou com roupas
enxutas. Areta cortava as verduras e legumes, já que ele surgiu por ali
disposto ela passou para ele a responsabilidade. Lá conversaram sobre o tal
incidente, ela se espocava de rir. Robert deitara-se na rede em frente ao
casebre e não parecia muito disposto a sair dali, Amanda surgiu de sua
caminhada. Ela atirou-se um pouco suada em cima dele na rede, ambos
permaneceram deitados ali.
Fred
acabara de encontrar uma pá para que começassem a cavar o tal buraco para pôr
os barquinhos. Erik o ajudava. Enquanto isso os demais buscavam folhas e
preparavam os tais barcos de papel, se bem que mais alguns minutos e veriam que
até pedaços de madeira virariam barcos ou submarinos. Ah aquela imaginação infantil...
O
almoço estava pronto, ou pelo menos fora o que Areta gritou da varanda. Aos
poucos surgiam as bocas famintas, ajeitavam-se ao redor da mesa fora da casa.
Era uma mesa improvisada, mas de bom gosto para decoração. Bendito o que trouxe
um belo pano e utensílios suficientes para a família. Estavam debaixo das copas
de muitas árvores, o sol dificilmente os pegaria ali embaixo. O vento soprava
folhas, areia voava, nuvens surgiam no céu e depois davam lugar a outras
menores e maiores também. A criançada logo estava rodeando a mesa, pratos a
posto e talheres nas mãozinhas afoitas. Olhinhos curiosos observavam as tias
que traziam as panelas para o meio da mesa, aquele cheiro gostoso passava por
suas narinas e alimentava a vontade. Seus espíritos infantis admiravam o sabor
do querer sem esperar mais do que é. Estavam felizes, não porque sorriam, não
porque tinham recursos suficientes, não porque estavam todos os que amavam ali.
Estavam felizes, porque estavam felizes. Viviam a felicidade um do outro, mesmo
o que há muito definhara em desilusões, mesmo o que se engalfinhara de desejos
e se frustrara. Estavam rodeados de bons ventos, ventos que sopram a alma e
apagam as flamas dos estresses da vida. Viviam. Bil ainda orara agradecendo por
aquele momento, seria inesquecível, não porque não se juntariam de novo, mas
porque era único. Estavam felizes...



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