Canto Da Gente (Season Finale)

capitulo iv
inverno da alma
Ele se atrasou de novo, pensava Susane enquanto dobrava as roupas em seu quarto. Aquelas malditas roupas de algodão dele, algumas sempre estavam manchadas de suor, de poeira, de sucos, de cervejas e também de batom; ela aguentaria mais uns dias se não fosse um batom desconhecido, da filha que não era e muito menos dela. Susane pegou a camisa e atirou pela janela a sua frente, mais tarde se arrependeria daquilo. As lágrimas escorreram impiedosas pelo seu rosto, o coração apertado parecia que ia parar a qualquer momento. Os soluços impediam os insultos, e mesmo que conseguisse esbravejar com a voz rouca algumas boas ofensas, quem a ouviria naquela casa em meio ao deserto daquela cidade miserável, talvez fossem os únicos da classe média ali, talvez fossem os únicos a ter uma casa bonita e com algum traço de que foi arquitetada. Isso não importava, as casas mequetrefes só apareciam há algumas quadras dali. Estava isolada pelo meio onde vivia e pelas emoções que a sufocavam.
Não há muito o que se decidir quando se tem 17 anos, exceto pelo excesso de pressão pela faculdade, pelo curso, pelos amigos que permanecerão no círculo de amizade quando terminar o último ano do ensino médio. Mas então, quais são as verdadeiras escolhas? Joanne não sabia, nem mesmo pelo termino do tão duradouro relacionamento ela pode decidir; ele quem a chutara, como os outros diziam, mas ela ainda o amava e queria que ele quebrasse a cara e voltasse arrependido para ela. Joanne sabia que isso não aconteceria, principalmente naquela manhã quando viu ele, Frâncio, com Esther. De fato a outra detinha uma beleza invejável, mas só; a garota não distinguia gelo de água, mas era bonita e pelo visto era isso que Frâncio queria. Pobre Joanne, sendo consolada pela sua melhor amiga que ela suspeitava também ter tido alguma coisa com seu Ex. Malditos sejam todos! Esbravejava em seus pensamentos, ficar sozinha naquela parte quieta da escola, ouvindo música deprimente, não a ajudaria muito e ela sabia; queria se afundar naquilo, queria saber o limite das emoções, mas ainda não sabia disso.
De certo, quando se tem 17 as decisões são levadas pelas pressões dos outros, mas quando se tem 9 a coisa muda de figura. Os jogos estavam ficando mais chatos a cada nova partida com os colegas, foi aí que o pai de Pedro começou a leva-lo para passeios estranhos com pessoas estranhas. Pedro não entendia nada, ia de zoológicos aos bosques, de shoppings às feiras livres; não reclamava, ficar em casa era um caos. Imagine só, ficar com a mãe deprimida enquanto joga na TV da sala o videogame de última geração com os colegas que possivelmente não gostam dele. Tinha sempre aquela competitividade, aquela coisa de saber quem tem mais e quem tem o melhor. A vida não é feita só das coisas caras, Pedro sabia. Por isso não ligava quando o pai o levava a vários cantos, aquele era seu trabalho. A profissão de guia turístico tem lá sua positividade para os familiares, mas a companhia do pai era sempre o melhor de tudo. Pedro o entendia, o pai o entendia também; ambos concordavam que em casa era um saco, as pessoas em suas vidas eram um saco, então que fossem ver novos rostos e novos lugares! Dessa vez estavam num museu, os turistas pediam para bater foto, mas era proibido, ali dentro pelo menos. Pedro se perdera em meio as pessoas, que nem eram muitas. Estava sozinho numa sala onde um conjunto de coisas velhas estavam amontoadas e os poucos que passavam diziam ser arte. Aquilo era deprimente, tanto quanto a mãe de Pedro, bagunçado, sem lógica e sem vida, um caos. Talvez isso fosse arte pensava Pedro em seu pequeno mundo infantil e meio amadurecido, o caos gera a arte, a arte é o próprio caos.
É claro que ela preferia ter viajado, não existia maior desejo do que se distanciar de tudo e de todos. Aquela vidinha monótona, aquelas pessoas irritantes, o emprego estressante, mas não fora possível naquelas férias de julho. Talvez Rose conseguisse em dezembro, mas já sabia como conseguir que seus planos não fossem frustrados como dessa vez. Iria guardar dinheiro sem ninguém saber, e quando chegasse a hora compraria as passagens e anunciaria de última hora e diria que ganhara no emprego a viagem e que não perderia essa chance. Esse era seu plano, passar um longo período longe da antipática nora, dos “sobrinhos” queixosos, e também do filho problemático e marido amargurado. Nem ela sabia ao certo como fora parar nessa família dos horrores, sempre fora tão animada e tão festeira, agora se via obrigada a tolerar uma vida mais ou menos levando crítica de todos os lados se não fosse uma boa mãe. Ah os bons tempos de solteira, quando conseguiu comprar aquele apartamento que dissera ter vendido pro marido, mas ainda o mantinha intacto. Vez ou outra fugia para lá, ficava quieta ouvindo músicas como naqueles tempos quando trabalhava e fazia faculdade. Certo, sua vida era conturbada e vivia em altos e baixos, mas não precisava ninguém dizer que não estava fazendo um bom trabalho, e se fosse ou não desleixada isso afetaria somente a ela. Bons tempo aqueles. Nunca fora de chorar, mas, quantas vezes chorou nas madrugadas sozinha na varanda desde que casara? Claro que aquele inútil estava dormindo feito pedra para ouvi-la, um marido prestativo como ele só a satisfazia em tempos de gozo e boas realizações. Contudo, tinha o pequeno, o filho que nem planejara e se tornara seu futuro. Ele vinha quietinho, a coberta na mão arrastando no chão, não perguntava nada e sentava em seu colo. O banco acolchoado era grande na varando do décimo primeiro andar, mas ele gostava de ficar bem pertinho dela. Não falava nada, e ela também não. Juntos, ela chorando em silencio, e ele dormindo em seu colo, juntos passavam muitas madrugadas. Um passarinho que voa não pode ser preso em gaiola alguma, suas asas atrofiam e ele pensa que não sabe mais voar; mas ele sabe; canta pensando que alguém irá solta-lo se o fizer de forma bela, mas ele não sabe que apenas querem ouvi-lo, que não irão solta-lo, que já o prenderam para seus vãos motivos; eu sou o passarinho, essa vida é minha gaiola. Rose pensava muito poeticamente quando começava a ler aqueles livros, as vezes isso a ajudava a sair do normal e monótono dia-a-dia.
Beber, fumar, sorrir, berrar, beber de novo. Os encontros com os colegas do estúdio onde trabalhava sempre dava no mesmo, vidas tristes, melancólicas e infortunas. Técnico das parafernálias auditivas, era o mais próximo que chegavam de dizer sua profissão, os seus conhecidos. Não davam valor para o que ele fazia, pensavam sempre que qualquer um seria capaz de ajustar uns botões, mexer nuns fios, ligar a caixa de som; assim vivia Rogério, ele ainda não se arrependera da profissão que escolheu. A maioria das pessoas que o conheciam o consideravam uma espécie de encanador, eletricista ou coisa do tipo, mas no ramo da música. Ainda achavam que fora sorte dele conseguir trabalho, porque a maioria acreditava fielmente que ele morreria de fome desempregado. Naquela tarde ele saíra com a banda já há muito contratada pelo estúdio, velhos conhecidos, beberam um monte naquele restaurante. Sempre se fingiam de ricos e grã-finos quando estavam juntos, mas a sós compravam do mais barato e pediam troco. Rogério bebia uma ou duas taças de vinho e abandonava o restante para os outros músicos, eles enchiam a cara e logo estavam sorrindo atoa e chamando a atenção do público do restaurante. Uma ou outra alma misteriosa os reconhecia e pedia autógrafos, sempre perguntavam quem era o velhaco de cabelos brancos com a banda; diziam: esse é o Roger, velho amigo, fiel fã. A verdade é que Rogério nem gostava do som deles, e os aturava porque assim pediu seu chefe, saía com eles, tomavam umas e outras e Rogério os levava mais alegrinhos de volta para o estúdio onde berravam seus rocks pesados, melodias contaminadas de insultos. Ninguém notava quando Rogério passava despercebido no meio da sala de maquinas, fazia um ajuste aqui e outro ali e nada, saía e ia fumar o seu cigarrinho enquanto pensava sobre o jantar. Aquela maldita deve ter comprado alguma coisa, pelo menos isso ela pode fazer; toda vez chego em casa e não tem nada. Vaca vagabunda, não me serve nem para fazer uma boa comida. Rogério a trairia se conseguisse alguém para querê-lo.
As aulas de canto lírico eram sempre as melhores, desde que entrara para a turma Norman se identificara com a parte do solo. A professora percebera que o garoto tinha um talento magnifico, sua voz doce e delicada encantava até os surdos para música. Aqueles que diziam não ter tempo para músicas clássicas ou coisas de riquinhos. O menino, com apenas 8 anos demonstrava um talento amadurecido. Além de afinado pegava fácil os ritmos e canções, devia ser um talento herdado do pai, não que ele incentivara alguma coisa. Simplesmente pagava as contas que o colégio de música mandava, não aparecera para nenhuma das apresentações. A mãe, pelo contrário, sempre estava por ali zanzando como quem não tem nada para fazer e vive a vida do filho. Até tentaram coloca-la para organizar uma das apresentações, mas fora um verdadeiro desastre, então ela continuava zanzando pelo colégio e buscando algum consolo. Norman não gostava de música porque entendia o significado que ela tem para alma ou qualquer outra explicação poética, gostava porque era o único momento em que alguém o observava, elogiava, notava que ele existia. Se não houvesse uma resposta do público, como aplausos, ou até mesmo vaias, certamente ele iria para o camarim se lamentar. A vida não estava muito empolgante ultimamente, todas as apresentações foram canceladas, ele andava cabes baixo pela escola e novamente ninguém sabia que ele existia ou que possuía algum talento. Era tristeza demais e responsabilidade demais para alguém com 8 anos, ele deveria no mínimo estar correndo de um lado ao outro atormentando a vida das pobres professoras, pedagogas e diretoras, mas não podia, não queria, e não iria. Nem mesmo entendia o motivo de certas brincadeiras, geralmente eram ofensivas e nada divertidas, ele pensava. Um carrinho, dois bonecos, três ursinhos, o Batman e meu violão, esses são meus tesouros; largaria os outros se pudesse ficar com o violão.
Ela o pegara de jeito naquela manhã, o arrastara para o banheiro masculino vazio do museu. E lá, lá ele vivera de novo. Quanto prazer se pode conseguir em alguns poucos segundos? Muito, o suficiente para se esquecer uma vida inteira de negligencia da mulher. Aquela maldita, fazia-o implorar por uma noite de amor, fazia-o se ajoelhar para que tivessem uma maldita noite de sexo. E quando conseguia, quando conseguia, era a pior noite de todas. A louca saía de repente da cama e ia para um canto da casa ficar se lamentando sabe-se lá porquê. Depois ela não sabia porque ele a traia com qualquer uma que aparecesse. Jonatas ainda era novo, nem mal chegara na idade dos cabelos brancos. Ainda detinha aquele vigor da juventude, queria extravasar esse restante de energia que dali há um tempo se perderia para a velhice. Mas a maldita não o ajudaria com isso, ele bem que tentava recuperar o afeto por ela. Aí ela jogava um balde de água fria em seus sentimentos, em suas tentativas, em seus planos. Então, que as outras, as que ainda querem viver o satisfizessem. Dessa vez fora Barbara, a vizinha que sempre arrumava uma desculpa para sair e passear pela cidade com Jonatas. Em algum momento do tour ele perdera de vista o filho, mas nem se importara, o moleque já era grande o suficiente para encontra-lo quando fossem embora. Senão, mais cedo ou mais tarde ele encontraria, mas naquele momento saciaria sua sede no pote de prazeres chamado Barbara. Mesmo estando em total êxtase sentia aquele vazio assola-lo de perto, uma aura demoníaca que o fazia se sentir culpado. Gritava ao fundo de seus pensamentos morra seu desgraçado, morra que todos se sentirão felizes; não serve para nada a não ser fazer as pessoas infelizes. Ele até tentava ignorar, as palavras o devoravam e faziam com a sua mente o que bem queria. Até que ele um dia encontrou uma solução, quanto mais aquilo o deprimisse mais ele aproveitaria o momento em desafio aquela miserável voz.
Susane fazia a comida na cozinha, se tinha algo que a fazia esquecer seus problemas era cozinhar. Cortava cada um dos legumes, carnes e verduras como se fossem seus problemas, e assim imaginava que iam diminuindo de tamanho e um dia poderia simplesmente cozinha-los e come-los. Aos poucos os pratos iam sendo feitos, de algo não se amargurava, era uma ótima cozinheira. Joanne chegou cedo da escola, arrumou-se veio ajudar a mãe. Parecia tranquila, parecia estar bem. Ajeitava o pano da mesa, tirava uma ou outra coisa que foram colocadas ali por outras razões que não para o jantar. Então Pedro chegara com o pai, Jonatas subiu apressado sem cumprimentar ninguém nem com um boa noite. Pedro fingia colocar os pratos na mesa, mas na verdade estava a beliscar os manjares. Até que Susane chamou sua atenção, naquele dia receberia visitas e não seria bonito ter marcas de dedos nas comidas. Susane estava silenciosa, por sorte que não começara nenhuma discussão com Jonatas, aí os pratos voariam para todos os lados.
Jonatas procurava inquieto sua camisa favorita, a mesma que usou no primeiro encontro com Laura, uma estagiaria de Turismo. Não encontrava a camisa em lugar nenhum, foi quando Susane entrou no quarto. Ele até tentou perguntar, mas recebera o silencio e um virar de ombro indiferente. Ele sabia que ela sabia, mas ela não diria. Estava naquele momento de ignorar o que ele falava, o que ele queria, o que ele precisava, o que ele pedia, e quem ele era. Essa era a forma dela de fazê-lo se sentir castigado, de certa forma dava certo; quando estava sozinho e precisava conversar com alguém, sempre fora a esposa que ficara ao seu lado, não nenhuma das outras que se entregavam pior que prostitutas. Ele a amava no final das contas, mas ela era insuportável quando o queria ser. E aquela história de convidar o irmão dele para jantar, não que ele não gostasse do irmão, mas o achava muito “perdedor”. Se bem que não ligava para a presença do irmão enquanto pudesse deliciar-se com a presença de sua esposa.
Rogério dirigia o carro apático e calado como sempre. Rose olhava cada paisagem pela qual passavam, tentava esconder o tédio mas ele a vivia. Pobre Norman, de fones no ouvido tentava silenciar aquele clima impassível da família. Nem mesmo os jogos no celular o distraiam, talvez se estivesse cantando... talvez os fizesse felizes de novo, mas o pai já o advertira antes sobre cantar no carro; era proibido naquela família, assim como todas as coisas comuns de outras famílias que pelo menos pareciam felizes. Quando receberam o telefonema de Susane, Rogério e Rose já quase iam travar uma discussão. Rose não fizera, nem comprara nada para comerem no jantar. Pizza de novo? Não dessa vez, pensara Rogério, dessa vez ela vai ouvir. Aí o telefone tocara e os ânimos se acalmaram até a insensibilidade do assunto quase esquecido.
Antes de sentarem à mesa, tentaram inutilmente manter algum dialogo ou conversa familiar. Rose acabara indo a um quarto falar com Susane, Rogério e o irmão tomavam umas cervejas na frente da casa. Norman e Pedro jogavam na sala aquele game que parecia ser impossível de zerar. Solitária Joanne deitara-se em seu quarto ouvindo música no fone, algumas vezes quase dormiu. Então chegara a hora do jantar, a comida quentinha e cheirosa. Os ares da sala de jantar eram encantadores, os quadros primaveris, a pintura das paredes, a vidraça que deixava a vislumbre o jardim florido, as pedrarias ao lado da vidraça deixavam um ar rustico. Comeram calados, uns diziam “está muito bom Susane”, “Você realmente tem mãos de fada”, “quem dera eu tivesse esse dom” e “está um pouco salgado, mas o sabor está ótimo”. O último fora de Jonatas, mas sinceramente não importava o que ele dizia, ou era isso que Susane queria. Nenhuma conversa divertida, ou sorrisos amigáveis, nem demasias em piadas e gracejos, nada demais, apenas comiam e pensavam em voltar as suas vidas. Estavam juntos, mas não estavam presentes. A indiferença, a falta de empatia era evidente demais. Assim que terminaram aquele pacato jantar, os visitantes partiram para casa. Os residentes enfurnaram-se em seus quartos. É claro, com Susane no quarto, Jonatas levou seu travesseiro para a sala e ali mesmo pegou no sono. Durante a madrugada ela até veio olha-lo, pensou em deitar-se ali e ficar agarradinha com ele, mas sentiu em sua roupa o perfume grosseiro da verdade.
W. P. Lobo

FIM DE TEMPORADA

estações da vida
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de saltar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de aborrecer; tempo de guerra, e tempo de paz.
(Eclesiastes Cap.3 e Vs.1 ao 8)

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