Orange VI


PARTE VI
Aquele charmoso e recatado professor entrara na sala de aula. Infelizmente fora interrompida a futura amizade. Logo a campainha tocou e iniciara a aula.
Um moleque entrara no banheiro afobado. Entrou no primeiro recinto vazio. Talvez estivera mantendo a urina a bastante tempo, pois a despejara com total alivio. Ele já ia sair quando Donavan entrou no banheiro. O moleque pequeno pensara em esperar até o grandalhão sair, enquanto estivesse atrás da porta estaria protegido. Ou ele pensara assim. Entretanto algo lhe passou pela cabeça, se demorasse de mais o professor o chamaria a atenção. Saiu de esguelha para que Donavan não o visse.
¾   E meu dinheiro, Cliv? – falara Donavan sem nem mesmo olhar para o garoto.
O garoto ensaiara uma fuga. No entanto Donavan percebera e virara-se, mesmo mostrando seus genitais de fora. Um sorriso maníaco lhe cobria o rosto. Ele recolheu seu órgão para dentro da calça e assistia o pavor nos olhos do pobre Cliv. Donavan sabia que ele não trazia dinheiro para a escola, sempre tinha o lanche pronto. Pegara o garoto pelo pescoço e levara até o reservado de onde ele viera. Lagrimas já escorriam pelos olhos do pequeno.
¾   Você sabe o que acontece quando não traz meu dinheiro.
Donavan enfiou a cabeça do menino dentro do vaso sanitário. Foram exatamente quinze segundos com a cabeça enfiada ali, mas parecera uma eternidade. Donavan ria do seu feito. Assim que terminou, o covarde foi embora, deixando o pobre Cliv aos prantos. Cliv arrependera-se imensamente de... não ter puxado a descarga...
No intervalo...
Vinne já ia saindo da sala quando Lise o chamou.
¾   Espera-me, Vinne!
¾   Tudo bem.
A garota remexia sua mochila enfeitada. Se fora ela quem fizera aquele ornamento, ela então era uma garotinha de muito talento. Mesmo tendo uma variedade de arranjos, não ficara de forma bagunça e sim muito organizadamente bonito. Ela pegara o dinheiro do lanche, colocara-o no bolso da calça jeans. Então agarrara o braço de Vinne e os dois partiram de braços dados. Ok então... pensara Vinne quanto a atitude tão afetiva de Lise.
Logo depois de comprarem o lanche, Donavan e seus amigos mal encarados surgiram atrás dos dois.
¾   Quem é essa, cabelo de fogo, sua namorada? – perguntara o gorducho malicioso.
¾   Bem que eu disse que ele era do tipo safado. – disse o magrelo de olhos arregalados, atrás de outro que parecia a cópia dele. Que figuras...
¾   Por que ficas me incomodando, hein? – disse de repente Vinne.
¾   Olha! Ele tem voz, e está valente. – desdenhou Donavan. – Já esquecestes que está me devendo um lanche? Hoje eu deixo passar, mas amanhã...
¾   Deixem ele em paz, seus patetas! – bravejou Lise incomodada com os sujeitos.
¾   Ou então o que, tampinha?
¾   Chamo a diretora, imbecil. – Lise detinha uma coragem extravagantemente admirável.
¾   Calma, calma. Estamos apenas conversando amigavelmente, não é Vinne? – Donavan queria escapar da encrenca.
¾   Não. – disse Vinne emburrado.
¾   A gente já está indo, não é pessoal? – disse o sujeito. Os outros concordaram como macacos treinados.
Quando foram embora, Vinne e Lise direcionaram para a mesa ao canto direito. Aquele lugar era afastado o suficiente para não serem incomodados por outros.
¾   Quem eram esses idiotas, Vinne?
¾   Sei la! Por alguma razão eles ficam me enchendo.
¾   Denuncia logo. Aposto como morrem de medo de serem expulsos, mas quando veem que não vão denuncia-los continuam a abusar.
¾   Não, não precisa. Com o tempo eles param.
¾   Tu é quem sabes. Eu acredito que não. – Lise deu de ombros. Contudo estava realmente preocupada com o colega. Aqueles valentões idiotas...
No fundo Vinne sabia que Lise tinha razão. Eles não iriam parar. Até que fosse feito alguma coisa contra eles, eram assim os covardes. Mais covardes ainda aqueles que se amedrontam diante de párias como esses.
¾   Qual o problema de ser ruivo, mãe? – perguntara de repente Vinne no carro, quando voltavam para casa.
¾   Como filho? Que pergunta é essa! – surpreendera-se Enne.
¾   Nada, mãe. Nada. – embaraçara-se Vinne.
¾   Não tem problema algum! Quem te disse isso, foi na escola?
¾   Não mãe, tudo bem. Eu só perguntei por perguntar. – Vinne agora arrependera-se de fazer aquela pergunta. Droga! Agora ela vai querer me sondar até descobrir o que está acontecendo.
¾   Mas que pergunta, hein.
¾   Eu tenho outra... – só continuou por perceber que a mãe não dera tanta importância. – o que é sarna?
¾   Sarna é uma doença que causa feridas. – respondeu Enne simploriamente.
¾   E eu tenho isso?
¾   Claro que não!
¾   E o que são essas pintinhas no meu corpo?
¾   São SARDAS, filho. Com D. Pessoas de pele muito clara tem.
¾   E é uma doença?
¾   Não, querido. Que droga estão te falando na escola, filho? Olha, você é lindo meu filho. Ruivo e com essas pintinhas que eu adoro... – Enne apertara carinhosamente o nariz do menino, onde haviam mais pintinhas amarelo-escuras. – que não são de doença, tudo bem filho, entendeu?
¾   Entendi.
Ele causara realmente uma preocupação em Enne. Ela lembrara de quando Úrsula perguntara aos pais porquê ela era ruiva e Enne não. Então Enne acabara prevendo uma conversa parecida com filho. É o famoso: por que eu sou assim? Que gira nos pensamentos de cada pessoa vivente. Por que ele perguntara desta forma, é o que intrigava Enne.
O transito estava congestionado, demoraram para chegar. Por isso Enne comeu apressadamente e retornou ao emprego. Por mais perto que fosse, os congestionamentos não colaboravam.
Vinne e Vicent jogavam videogame no quarto. Enquanto isso a velha e cansada Marianne adormecera no sofá. Vicent com sua total falta de percepção não notou, mas Vinne não ganhara nenhuma vez enquanto jogaram. Ele estava realmente distraído, não era o tipo de garoto que perde tão facilmente. Não é uma doença... O que estão te dizendo na escola... As palavras da mãe circulavam tentando se encaixar na situação pela qual o menino passava. Então porque eles me perturbam? Por que... Por que... Sardas... Sarnas... Será que ele se confundiu? ...  Por que comigo?
Cada dia se tornara pior do que o outro. Vinne nem mais queria ir à escola. Enne não conseguia entender a atitude desanimada e melancólica do sorridente Vinne. No quarto dia de aula os valentões nem pediram mais o dinheiro, esperaram Vinne se afastar da multidão de alunos e o imprensaram na parede; levaram o dinheiro do seu bolso e Donavan o acertou um soco na boca do estomago. Lise o vira caído no chão, ela sempre estava à espreita o procurando. Ao vê-lo naquela condição manteve-se fria e firme, ajudou-o a levantar e foi embora. Ele sabia o porquê dela fazer isso, ela queria que ele falasse aos responsáveis o que estava havendo.

CONTINUA...

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