Orange # TheEnd


PARTE VII
Vinne saíra para o intervalo. Tentara de toda forma esconder-se de Donavan. Estava no banheiro quando ele apareceu. Dessa vez Vinne decidira reagir empurrando o gorducho, mas isso causara algo ainda pior do que ser roubado. Donavan e os seus macacos o espancaram ali dentro do banheiro. Sangue escorria da boca, hematomas por todo o corpo. Os chutes e socos pararam, quando Vinne abriu os olhos inchados os malandros já tinham ido embora. O menino arrastou-se pelos corredores até a parte de trás do colégio. Não havia ninguém pelos corredores, já batera a campainha anunciando o retorno as aulas. Vinne sentou-se na arquibancada do ginásio aberto. Tentava a todo custo aguentar as lagrimas e a intensa dor. Passou-se quinze minutos amargos de dor e sofrimento, quando Lise apareceu o procurando a pedido do professor.
¾   Vinne! – assustara-se Lise. – o que houve?
Vinne não respondeu, mas ela sabia exatamente o que ocorrera. Ela sentou ao lado dele.
¾   Você não pode ficar se culpando pra sempre. Nem ficar sem falar comigo por algo que nem sou eu que estou fazendo!
¾   Agora queres também me dizer o que devo ou não fazer!
¾   Não, não é isso. Sabes que desde o início quero te ajudar, mas tu és muito cabeça dura para entender.
¾   Eu não preciso de ajuda.
¾   E é por falar isso que eu sei que precisas!
¾   Se eu não posso fazer nada, então o que tu poderias, hein?
¾   Denunciar aqueles imbecis é um começo...
¾   Não!
¾   Eles já estão por um fio, só tu não percebes o quanto eles estão encrencados com a diretora.
¾   Não, eu não quero.
¾   Se tu não falas nada, EU vou falar!!
¾   Você não pode fazer isso, não é problema teu! – dissera Vinne nervoso, mas um espasmo de dor o impedira de levantar mais a voz.
¾   Oh! Não posso não é. Então agora tu queres me dizer o que fazer! Pois te digo que posso e VOU!
Lise levantou-se e seguiu de volta ao colégio. Ela estava com passos rápidos demais para que ele naquelas condições acompanhasse. Ele tentava convencê-la de não fazer aquilo, mas ela era uma garota realmente durona e teimosa. Acima de tudo, tinha grande afeição por ele...
Os dois entraram abruptamente na diretoria.
¾   Meu Deus! O que houve contigo menino? – disse a Diretora assim que reparou Vinne machucado. Ela arrumava uns papeis no fichário de ferro ao canto da sala. Era jovem e simpática.
¾   Eu tenho algo a denunciar diret... – Lise começou.
¾   Não, então deixa que eu fale! – interrompeu Vinne.
A diretora Soledade ouviu tudo o que o menino falou com muita atenção e preocupação. Seu coração ficava apertado ao ver Vinne chorando a sua frente, em um momento da história ele começara a chorar; simplesmente não pode conter as lagrimas. Talvez os olhos inchados não permitissem...
Lise tinha razão, Donavan e os macacos treinados estavam a um fio de serem expulsos. Soledade deixou bem claro que essa fora a gota d’água. Ela telefonara com urgência para os pais de Donavan, para cada um dos pais dos outros e para Enne. Enne deixara o emprego apressada, explicara rapidamente para o chefe; ele a permitiu sair, mas ela iria mesmo que custa-se o emprego. Oras! Quem ousara fazer tal coisa com o único ser vivente nessa terra que Enne Heaven tanto amava e protegia? Ele era a única coisa que restara em seu coração, até mais que os pais... Um pedacinho de felicidade, aquela mesma que fora destruída em julho. Enne não conteve-se, chorou indignada no carro, só queria abraçar o filho e mostrar-se presente.
A reunião urgente fora sucinta em seu parecer, Donavan fora expulso assim como outros três dos seus amigos. Dois ainda mantinham-se apenas no fio da paciência da diretora. O pai de Donavan, um homem severo, porém justo exigira que o filho pedisse desculpa para Vinne. O moleque gritara e esperneara dizendo que jamais pediria desculpa a um imundo como Vinne. O pai dele ficara imensamente constrangido, se estivesse em casa arrebentaria a boca suja do malandro.
Watson, pai de Donavan, chamara Enne num canto depois da reunião. O filho dele esperava furioso no carro. Watson desculpara-se imensamente pelo ocorrido. Contou que sua esposa havia ido embora de casa, abandonando ele e o filho esbravejando as piores palavras. Era uma mulher desequilibrada, ele só percebera isso depois do casamento. Sofria com a tensão de o filho acarretar o distúrbio mental da mãe. Ela era uma mulher bonita, ruiva de pintas acentuadas no rosto. Depois que ela foi internada pela própria mãe numa instituição de reabilitação, Donavan despejava intenso ódio em pessoas ruivas. Era algo doentio... Depois desse episódio, revelara a Enne que ele mandaria Donavan a um especialista. Despediu-se ainda desculpando-se.
¾   O que está feito, está feito. – dissera Enne realmente compadecida do homem. Contudo, desculpa-lo ali ou depois jamais mudaria o que houve.
Em casa. Enne limpava as feridas do filho, ele reclamava da dor. Em um momento ela não pode segurar a dor que ela também estava sentindo na alma. Abraçou o filho e desandou a chorar pedindo desculpas. Desculpa pelo divórcio, por ter trocado ele de escola, por não perceber o que estava acontecendo e então... por ser uma péssima mãe que não pudera nem dar a ele um lar com mãe e pai. Aquele desgraçado, onde ele deve estar agora... Havaí, Bahamas, Cataratas do Niágara... Espero que esteja no inferno! Pensara pesarosamente Enne quanto ao maldito ex-marido. Ele escolhera isso, escolhera deixa-la com o filho para seguir o que ele chamava de “vida livre”. Vinne a apertou nos bracinhos arroxeados.
Os dias se passaram.
Enne comprara um celular para manter contato com o filho. Qualquer urgência! Ela dissera. Vinne fundamentou uma amizade verdadeira com Lise, agora mais inseparáveis do que nunca. Através dela conhecera outros dois amigos, Cliv e Hugo. Parecia que o incidente aos poucos se dissipava da realidade do menino...
        ...                          ...                        ...               

Vinne saíra para comprar algo no mercado naquele fim de tarde. Olhava distraído para o céu que ganhava uma coloração alaranjada intensa conforme o sol se punha. Ele não percebeu, mas Donavan o tinha avistado a umas três ruas atrás e agora o seguia como um animal a caça. Perto de um terreno abandonado Donavan surgiu ao lado dele e o empurrou para aquela área vazia.
Sem dizer uma palavra sequer Donavan tirou do bolso um canivete. Outras crianças da escola já falaram que ele sempre andava com um. Agora Vinne via que era verdade. O garoto aproximava-se dele com o ar de fúria. Não tinha para onde fugir, nem pra quem pedir socorro. A rua estava vazia. Naquele lugar seria ainda mais difícil de avistar alguém. Donavan o socou, desnorteado pela forte porrada Vinne não entendeu direito o que houve depois. Vira Donavan puxar o canivete e sentira então algo escorrer pelo seu pulso direito. Passos correndo...
Que cor estava o sol naquela tarde... amarelo... vermelho, não... era como antes quando ele andava na rua há alguns instantes atrás... estava intensamente Laranja. Aquela cor tão forte, tão viva que logo ia morrer no horizonte. Tudo escureceria de um jeito ou de outro. As nuvens brancas. As folhas laranjas e algumas verdes. As flores. Os frutos. A pista... Os seus olhos...
Vinne ficara trinta segundos observando, quase inconsciente, o céu. O corte em seu pulso não foi tão profundo, mas certamente fizera um estrago suficiente para sangrar. O soco o deixara desconsertado, o sangue se esvaindo lhe tirara a consciência. Logo não sabia mais se estava acordado ou dormindo quando ouviu uma voz gritando, e nem sabia se era real aquele ser alaranjado que o carregava no colo. O rosto... o rosto, certamente era de um homem. Mas existem homens que brilham na cor laranja?
Alguém apertava sua mão. O toque era quente e doloroso. As imagens apareciam embaçadas. Mas era uma menina.  Olha como o cabelo dela é comprido, ei! Olha o cabelo dela. Escuro novamente... eu não quero voltar para o escuro, mami.
Alguém passava a mão em seu cabelo. Sim, as imagens estavam mais claras dessa vez. E da outra vez, será que a menina de cabelo comprido existia, e o homem laranja? Era Enne ali no quarto. Os olhos da mãe o analisavam preocupados. Ela sorrira quando o viu abrir os olhos. Estava num hospital.
Lise veio visita-lo nos dois dias que ele ficara inconsciente. Apesar do corte não ser tão profundo, ele perdera bastante sangue. Agora fora reabilitado. Enne implorou para Úrsula vir ao banco de sangue doar para o sobrinho, pois ela era do tipo sanguíneo de Vinne. Ela viera no primeiro voo, e resolvera passar um tempo por ali. Assim, para apoiar a família. Mesmo pálido Vinne já conseguia manter uma conversa coerente sem apagar novamente. Descobrira que Donavan fora levado a uma instituição de menores problemáticos, e que estava recebendo tratamento psiquiátrico. O homem laranja era apenas uma pessoa que passara na rua e avistara Donavan correndo de dentro do baldio terreno, ao ouvir um grito resolvera ver o que era. Encontrara Vinne caído no chão, com o olho direito machucado e o que mais o espantara, o pulso cortado transbordando sangue. Ele agira de imediato, pegou o garoto no colo e correu para o hospital mais próximo. Ficara por ali até Enne chegar. Ele ligara para ela, pois era o contato no celular do menino que dizia: Mami.
Vinne estava sozinho no quarto. Olhou para a janela do quarto e percebera que estava terminando o dia. O sol se punha alaranjado... mas dessa vez ele poderia esperar a noite, poderia dormir sabendo que acordaria no dia seguinte.
The End
#Orange


Escrito por:
Wilson P. Lobo

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