Orange V
PARTE V
A campainha tocava. Enne colocava na boca uma boa
quantidade de comida; já estavam jantando. Ela terminou de engolir e foi
atender a porta. Agiurdas Gregory esperava olhando para o céu coberto de nuvens
cinzas, aquela pausa de sereno de chuva logo acabaria. Um cheiro molhado e
abafado dominava o ar.
¾ Oi
pai! – disse Enne ao abrir e perceber quem era.
¾ Oi
filha, vim deixar esta mochila. – disse Agiurdas com seu tom rouco de voz, mas
sempre mantinha aquele sorriso no rosto. Apesar da idade sua fisionomia era
consideravelmente jovial; uma ruga aqui, outra ali, nada muito extremo. Os
cabelos brancos se misturavam aos ruivos. Os olhos verdes encantadoramente em
foco, a pele clara e com algumas pintas; sardas.
¾ Não
quer ficar para jantar conosco?
¾ Melhor
eu apenas deixar isso aqui. Você sabe, sua mãe preparou um jantar que está
cheirando daqui! Então é melhor eu ir. – disse Agiurdas. Apesar de ser um homem
tão alto, de voz firma e boa aparência, não demonstrava qualquer hostilidade.
Ao contrário, era sempre muito gentil e atencioso.
¾ Tudo
bem então. – Enne deu-lhe um beijo no rosto que também foi retribuído pelo pai.
Ele despediu-se, entregou a mochila e partiu olhando ainda para o céu.
Agiurdas estava certo, assim que ele pôs os pés na
frente de sua casa a chuva despencou. Quase ele não conseguira entrar.
Enne tentava puxar um assunto com os garotos, sobre
a escola. Vicent em meio a conversa tentava empolgar o primo quanto a novas
amizades, dizia que logo encontraria bons amigos. Infelizmente Vicent estudava
numa escola ali perto, a vó não quisera troca-lo para estudar com o primo;
apesar dele ter pedido muito... Cada um
no seu canto, dissera Marianne. Enne percebera o pessimismo de Vinne quanto
a nova escola, logo também estava a convencê-lo que bastava um tempo para ele
conhecer novas pessoas e estar falando sem parar dos novos amigos. Vinne apenas
abaixava a cabeça e concordava. Talvez,
só talvez, aquele garoto me deixe em paz se eu o ignorar, pensara Vinne.
Debaixo da cama de Vinne havia outra embutida, ela
deslizava e pronto surgira um lugar para Vicent dormir. Enquanto Enne preparava
as camas com cobertores lavados e cheiros, os dois moleques divertiam-se no
videogame na sala. Assim que ela terminou os chamou para o quarto. Deitaram-se
viram um filme de heróis e aventuras. Olhos fixos na tela, nem perceberam
quando Enne saíra.
Quantos
heróis são precisos para trocar uma lâmpada? Uma legião... porque primeiro eles
terão de passar do véu da fantasia até a realidade. Enquanto isso não acontece
eu continuo trabalhando e cuidando do meu filho. Pensara
Enne tentando organizar seus pensamentos.
Quando Enne voltara ao quarto os garotos jaziam no
mundo dos sonhos. Ela desligou a TV. Vinne deitara-se ao contrário na cama,
então Enne aproveitara para fazer-lhe um cafuné. Ele acordara sonolento e
murmurara uma palavra que apenas Enne poderia identificar, Mami. Ela o deixara com um terno beijo, foi até Vicent e também o
beijou. Aquele ali, nem se o mundo desabasse da sua órbita ele acordaria. Por
alguma razão ela sentira que ele ficaria calmo naquela noite, ou era isso que
ela esperava...
Com a rotina reestabelecida, no segundo dia Vinne
acordara mais cedo. Estava na sala de aula quando a menina que trombou com ele
no corredor também chegou. Dessa vez ela sentou atrás dele.
¾ Chegou
cedo hoje.
¾ Consegui
acordar mais cedo.
¾ Como
é teu nome?
¾ Eu
disse ontem...
¾ Não
quer dizer que eu lembre.
¾ Vinne!
– o dialogo permanecera sem contato visual até então. A menina falava de trás e
Vinne respondia. Agora ele virara.
¾ Ok,
agora eu não esqueço mais.
¾ E
o teu, como é?
¾ Pode
me chamar de Lise, prefiro assim.
¾ Ok,
lise.
¾ Sabe,
gostei realmente de ti Vinne! – disse a garota tresloucada com um largo sorriso
no rosto.
No dia anterior, no corredor, ele trombara com ela,
pedira desculpa e foi embora.
CONTINUA...



Comentários