Heart Attack Episódio XVII Introspecção



Episódio xvii introspecção
          Na ala para doentes mentais, no quarto ao final do corredor tenebroso, encontra-se Joe, deitado, fitando o breu escuro. Não consegue dormir. Desde o dia que chegou. Eduardo tem ido com freqüência visita-lo, mas não pode ficar para fazer companhia a noite.
          Joe não está com medo, apenas não quer ficar sozinho. Porque você é tão diferente?
¾   Porque você diz que sou diferente? – Joe começa a falar consigo mesmo.
¾   Você não é mau, o outro é. – sua voz está firme, porém inocente.
¾   Que outro? – A voz que Joe faz para fazer as perguntas é enfática e tenebrosa.
¾   O bicho que vive dentro de Andrew.
¾   Você consegue vê-lo?
¾   Sim. Ás vezes.
¾   Como ele é?
¾   Não sei ao certo. Da última vez que o vi foi quando Andrew passou do nosso lado, depois de ter matado Elizabeth. Mas o que vi foi um animal. Ou parecia um animal. Sem pelo. Grande. Maior que nós todos. Olhos escuros. Fundos. Sem vida. Não havia boca. Pele negra. Com pedaços dilacerados. Uma coisa eu sentia no ar: um odor podre. Carne podre.
¾   Você só conseguiu ver e sentir isto?
¾   Foi.
¾   E como você acha que eu sou?
¾   Você é um homem. Consigo te ver claramente.
¾   Consegue? – Charles está perplexo. A criança pode vê-lo.
¾   Sim. Tem cabelos castanhos. É branco. E tem um sinal no queixo.
Charles (no corpo de Joe) começa a chorar. Nem ele lembrava mais que tinha um sinal no rosto, afinal, almas não possuem corpo. São apenas espectros.
Não era a primeira vez que Charles conversara com Joe. Houve outras vezes. Mas Serena e John sempre acharam que se tratara de um amigo imaginário. Na verdade, John acreditava no amigo imaginário, porém, Serena sempre acreditou no filho. Ela sabia que Charles estava no corpo de seu filho. Certa noite Serena tentou conversar com Joe para saber mais desse amigo imaginário.
Ao colocar Joe na cama. Ela questiona.
¾   Charles? – Serena olha fixamente para o rosto de Joe. Ele a observa.
¾   Oi. – Joe responde. Deixando Serena tensa.
¾   Você está brincando Joe?
¾   Não, Serena. Você está certa. Sou eu Charles. – Serena se afasta da cama.
¾   Onde está meu filho?
¾   Aqui. – Joe ergue os olhos para cima e aparece a parte branca dos olhos até um olho azul aparecer no lugar do castanho. – Mamãe?
¾   Joe. Meu amor, você está bem, querido? – Serena está perplexa, mas ao notar aquela cena se dá conta de que sua vida é paranormal.
¾   Estou aqui mãe. Charles disse que posso ver você quando eu quiser.
¾   Ele disse isso? – diz surpresa com as palavras de Joe. – Ainda bem meu amor. Tinha certeza que você estava aqui o tempo todo. Mamãe te ama.
¾   Também te amo, mamãe. – Ela o beija na testa e ele a olha nos olhos, até que seus olhos se erguem novamente e dão lugar aos olhos castanhos, sem vida.
¾   Também te amo, mamãe. – repete Charles, de posse do corpo de Joe. Serena mesmo assim o abraça forte.
¾   Vou cuidar de vocês dois. John não precisa saber de nada.
¾   Você sempre conversou com mortos, Serena? – pergunta Charles.
¾   Sim, desde pequena. Sempre vi almas. Pessoas. Seres. Fantasmas. Seja lá o que for. Você não foi o único Charles. Desde quando entrei pela primeira vez na casa de John eu o vi. Lá estava você, cabelos castanhos, olhos castanhos, branco; atrás dele como um encosto. Mas não um maligno e sim um de luz.
¾   Sim, um de luz. – Charles franzi o cenho e deita-se.
¾   Boa noite. E por favor, proteja meu Joe.
¾   Pode deixar.

Eduardo chega ao Hospital para mais uma visita. Passa por Bárbora e lhe manda um beijo. Ela faz que segura com uma das mãos e leva até os lábios. Ele ri. Ela também. E ele segue para o andar de Joe. Estava ansioso para ver Joe. Há uns dias Joe estava contando coisas da vida de Eduardo que somente Deus e Eduardo saberiam, e isso o intrigava. E foi assim, durante quinze anos. Eduardo já tinha formado uma família. Agora era inspetor. Mesmo assim, todos os dias, desses anos que se passaram ia visitar Joe no sanatório, depois que, Heitor, constatou insanidade mental. Joe via, fazia, e dizia coisas sobrenaturais, que a razão humana não o compreendia. 


Continua...


By: Samuel S. Lobo

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