Heart Attack - Episódio XVI Cheiro da Morte





Episódio xvi  cheiro da morte
           
           As noites de Daniel nunca foram tão vazias, quanto aquela em particular. Depois de “netuno” dizer adeus, era a vez de “Neve’ a gatinha branca de sete meses que a algum tempo vinha enfrentando uma luta incansável para sobreviver. Afinal, era difícil para o bichano escapar das sessões de afogamento na banheira. Uma, duas, três vezes por semana, eram as vezes que Daniel a pegava no colo, e a enfiava dentro da banheira. Isso quando conseguia encontra-la, as vezes ela se escondia debaixo do sofá, mas ele sempre a encontrava. “Netuno” o gato “amigo” de Daniel, sobrevivia há dois anos. Mas da última vez Daniel havia esquecido de tirar “netuno” de dentro do congelador. Estava assistindo a um filme e esqueceu o gato dentro do congelador, o gato ficou bastante tempo lá dentro, pois Daniel repetiu o filme quatro vezes.
            Quando pequeno, Daniel, odiava bichos. Eles trazem doença dona Carla! Dizia a criatura. O primeiro animal que teve foi uma tartaruga. A responsável por ele no orfanato o deu, porque não imaginava que Daniel fosse implicar com um animalzinho, que vive dentro de um aquário. Mas, Daniel sempre arranjava um jeito de se livrar dos animais. Quando os responsáveis pela cozinha do orfanato a deixaram sozinha, ele aproveitou para tirar uma dúvida. Será que tartarugas sentem calor? Daniel a tirou do aquário e colocou em uma panela com água e levou até o fogão; lá acendeu o fogo, e contemplou a tartaruga tentar escapar daquela panela lisa. A água estava fervendo, era possível notar a fumaça resultante da ebulição. E a tartaruga ainda estava viva. E Daniel estava em pé em cima de um banquinho, com olhos fixos a cada movimento do pequeno animal. Estava tão distraído que não notou a porta se abrir. Era Carla, havia esquecido algo na cozinha e foi buscar.
¾    Daniel? – Questiona Carla; surpresa com o menino no banco.
¾    Carla! – Daniel se assusta e esbarra na panela, fazendo com que caia sobre ele a água fervente junto com a tartaruga que cai sobre sua barriga.
Daniel está sentado no sofá de sua casa, passando a mão sobre a mancha que ficara na barriga. Está assistindo ao seu programa favorito, Discovery Channel. Seus braços estão arranhados, mas não o incomodava. Estava triste, na verdade de luto. Daniel olha para a parede e ver a foto de sua formatura. Porque me tornei médico? Indaga.
            A curiosidade de Daniel o transformaram em um médico. Quando adolescente, as tutoras do orfanato viviam encontrando animais pequenos dilacerados, abertos ao meio, sem cabeça, em seu quarto. O odor pútrido que exalava era insuportável, somente Daniel conseguia ficar em seu quarto. Vísceras, olhos, cabeças de animais pequenos, como ratos e lagartos poderiam ser encontrados ali. Várias foram as vezes que levou advertências, castigos e disciplina. Mas, nada o mantinha satisfeito. Estudava muito e sozinho. Viu a chance de sair do orfanato se entrasse pra faculdade. Aos dezessete anos fez a prova e o resultado foi tão surpreendente que deram a chance de escolher qual curso pretendia fazer, a resposta: Cientísta! Mas esse curso não o tinham. Foi então, que, sugeriram medicina. Daniel entrou pra faculdade, mas só se viu livre do orfanato aos dezoito anos.
           
Violet está deitada na cama aparentemente desacordada. Talvez fora os sedativos que Marta aplicou. O travesseiro estava uma poça de sangue. Embora houvesse uma faixa de esparadrapo envolto na cabeça de Violet. Mas, parece que nada fazia estancar o sangue.
Daniel entra no quarto e se enoja da cena. O quarto exalava um cheiro de ferro muito forte. Acho que é essa a paciente que está com uma hemorragia. Pelo que vejo, realmente, morrerá. Pensa.
Algumas horas atrás, Daniel, havia se recusado a atender Violet. Não queria assistir a uma pessoa que poderia agredi-lo a qualquer momento. Porém, os outros médicos o olharam com o olhar de desprezo. Como um médico poderia se negar a atender um paciente? Isso era inadmissível! Então, Doutor Heitor Conteras, o clínico geral, e dono do Hospital Vida Segura, exigiu que ele a atendesse. Daniel era o melhor médico cirurgião do Hospital. Não poderia ser outra pessoa, senão ele o mais indicado.
Elizabeth. Elizabeth.
Daniel ouve claramente a paciente sussurrar este nome. Curioso. Resolve aproximar-se para ouvir melhor.
Elizabeth.
¾    Elizabeth? – Daniel franzi o cenho.
¾    Sim, onde está Elizabeth? – Violet está delirando.
¾    Está falando da criança que morreu naquele acidente?
¾    Morreu? Acidente? Como? – Violet está confusa. Seus olhos estão fechados. Daniel a observa.
¾    Você está muito doente. Sou Daniel, o médico que cuidará de todo esse sangue. – Diz observando todo aquele sangue envolto na cabeça dela.
¾    Estava doendo. – Violet abre os olhos e fita os olhos azuis de Daniel que a observam.
¾    Tudo bem, não se preocupe, consertaremos tudo isso. – Violet consente com a cabeça.
Violet tentar ergue a cabeça. Só o que poderíamos ver era uma cena patética de um semi cadáver tentando levantar. O som que se ouvia da cabeça dela desgrudando-se do travesseiro era perturbador. Aquelas linhas vermelhas que se formavam atrás da nuca de Violet eram como teias de aranha, só que vermelhas, na verdade, quase pretas. O cheiro estava deixando Daniel enjoado. Assim que a viu tentando levantar ordenou.
¾    Por favor! Fique deitada. É melhor. – Daniel ergue os dedos ao nariz e o tapa. Violet volta a deitar.
¾    Sente esse cheiro? – Pergunta Violet, surpreendendo Daniel. Que balança a cabeça confirmando.
¾    É o cheiro da morte. – Responde. Deixando Violet intrigada e curiosa.

Daniel se retira. Deixando Violet fitando o nada.


Continua...

By: Samuel S. Lobo

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