Orange I
Orange
PARTE I
O sol acabara de surgir no horizonte, era umas sete
e meia da manhã. As crianças corriam de um lado para outro revendo colegas e
velhos amigos. Os pais os deixavam e partiam para suas rotinas apressadas, mal
podiam se despedir dos pequenos. A escola Mario de Azevedo estava cheia naquele
primeiro dia de aula, sua estrutura antiga mostrava-se majestosa diante dos
outros prédios da redondeza. Um carro prateado, modelo simples, parou a frente
do colégio fundamental. Antes de abrir as portas via-se o garoto recém chegado
a escola observando tudo com muita atenção pela janela. Sua mãe saiu do carro e
esperou por ele do lado de fora. O que seria da sua vida ali, quem conheceria,
como serão... Tantas dúvidas passavam pela mente do menino.
Ele saiu desajeitado, puxou sua mochila do banco de
trás. A mãe o acompanhou até a metade do caminho, depois de dar-lhe um apertado
abraço e um amável beijo o deixou ali. Ele olhou para o prédio a sua frente
como se fosse um monstro, como poderia enfrentar mais isso em sua vida, pensava,
já não bastara a confusão das férias quando seus pais decidiram pelo divórcio.
Ele andou em direção a porta de entrada, ouviu a campainha tocar alto ao fundo.
Seus pés pareciam deslizar pelo chão, enquanto outras crianças passavam por
ele, empurrando, tocando, sorrindo, gritando... Ele deu uma última olhada para
trás e percebera que a mãe esperara no carro até ele entrar. Aquele seria um
longo ano.
Uma hora e meia antes.
Enne preparava o café da manhã apressada, o filho
ainda não havia acordado. Ela correra para o quarto do garoto para desperta-lo.
Provavelmente por causa dos últimos dias quando se mudaram e começaram a fazer
pequenas reformas na casa ele estava cansado, tanto quanto ela. No entanto ele
não poderia perder o primeiro dia de volta as aulas, esse seria um dia bom para
conhecer a nova escola.
¾ Vinne,
querido acorde! Vinne! – pressionava Enne.
¾ Já
estou acordado, só mais um minuto, mãe. – pediu manhosamente
Vinne.
¾ Vamos
filho, estamos sem tempo pra isso. Vai acorda, nós dois vamos nos atrasar! –
reclamou Enne.
O moleque tinha oito anos de idade, estava na
segunda série do fundamental. Ouvindo os pedidos da mãe moveu-se pra um lado e
outro, mas no final foi só para pegar a coberta e embrulhar-se.
¾ Não!
¾ Então
vai ser assim.... – disse Enne preparando uma estratégia de tirar o dorminhoco
da cama.
Enne percebeu os pés do garoto descobertos, fê-lo
cócegas até que ele não aguentasse mais. Mesmo assim, quando ela parou ele também
parou de rir e encobertou-se novamente. Essa seria uma grande batalha, mas ela
já decidira que ganharia. Fê-lo cocegas outra vez, mas desta vez naquela parte
muito sensível do pescoço. Terminou puxando-o para um abraço, onde enfim ele
desistiu. Ambos rindo levantaram-se.
A mesa estava arrumada para o rápido café da manhã,
afinal Enne acordara trinta minutos antes para preparar tudo. Era de seu
costume acordar cedo, mesmo antes quando não trabalhava. Vinne desceu arrumado,
vestia o uniforme da escola nova. Enne simpatizava com o uniforme, recordara a
ela seus tempos de estudante. Ver o filho ali preparando-se para o colégio
partia-lhe o coração, não muito tempo antes ela passara a maior parte do seu
dia cuidando do pequeno. Agora via ele caminhar para uma vida própria de
autonomia.
Enne acelerou o carro tanto quanto pode para ficar
um pouco abaixo do limite de velocidade, queria fazer o possível para não se
atrasar no primeiro emprego depois do divórcio. Sorte e esforço dela ter
conseguido ficar com o carro na separação. Vinne olhava distraído pela janela
do carro, estavam os dois silenciosos. Era um grande dia para ambos. Um dia de
novidades e desafios. O carro chegava cada vez mais próximo da escola, e aquela
sensação de aperto no peito aumentava em Vinne.
CONTINUA...
BY WILSON P. LOBO



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