O Livrinho Vermelho CAP VII
VII
Memórias
seladas
Tommy acabara de chegar, passava pela
sala até a escadaria. De onde destinar-se-ia para seu quarto, claro que ele não
imaginaria o que ocorreria dali a alguns segundos. Nicholas aparecera de
repente ao seu lado, empurrara-o fazendo com que tomasse tremendo tombo dos
cinco primeiros degraus. Sem nem tomar medidas de socorro ao irmão, Nicholas
passou e correndo velozmente subiu a escadaria e irrompeu pelos corredores do
andar de cima. Chegou ao seu quarto e ali se trancou.
Nenhuma lesão drástica afetara Tommy,
apenas aquela ferida no ego. Poxa! Que
diabos essa criatura deve ter feito para fugir assim, pensava o moleque.
Logo lhe surgiu um sorriso. Dificilmente via o irmão de castigo ou aprontando
alguma, Nicholas sempre se safara das encrencas que se metiam juntos. Agora,
ele não teria desculpas. Tommy já até esquecera o tremendo tombo que levara.
Catherine acabara de entrar na sala,
chegara do mercado. Trazia consigo sacolas e mais sacolas de compras,
provavelmente passara pela feira local também. Estava com aquele cheiro de
verduras frescas. Ao ver o garoto atirado no chão largou as sacolas e foi a seu
socorro; não era só ela, mas todos os empregados da mansão tinham uma devoção,
preocupação, pela família residente. Não que isso fosse algo ruim, no entanto era
estranho. Não faziam por obrigação, geralmente estavam sorrindo e cantarolando;
era de seu prazer servir com excelência à família Tarsus.
¾ Estás bem
menino Tommy? – perguntou a senhora realmente angustiada.
¾ Estou sim dona
Cat. – respondeu o garoto ainda com um largo sorriso. De certo modo ver Tommy
rindo e não chorando acalmou o coração de Catherine.
¾ Que bom meu
filho – suspirou aliviada – deixe-me ajuda-lo. – ela lhe dispôs a mão para
ajudá-lo. Ele se apoiou no chão, pegou na mão macia de Cat e ergueu-se
novamente. Sentia uma leve dor nas nádegas.
¾ Aquele louco
quem me derrubou!
¾ Falas do
menino Nicholas?
¾ Sim Cat, ele
passou voado aqui e nem mesmo parou para me ajudar. Só vi um vulto e POW já
estava no chão. – explicou Tommy.
¾ Será que ocorreu algum problema com ele, devo
chamar a Senhora Tarsus? – disse dona Cat, seus olhos azuis estavam distantes.
Parecia ter levado um susto.
¾ Não Cat.
Depois eu vejo o que houve com ele. E já dissemos que não precisa nos chamar de
Tarsus, nem essas cordialidades chatas. – informou Tommy já distanciando-se em
direção da escadaria novamente. Estava louco para saber o que aprontara
Nicholas.
¾ Desculpe-me
menino Thomas, quero dizer, Tommy. Já estou acostumada, mas prometo lhes chamar
como desejam. – disse Cat retomando seu trajeto até as compras para leva-las a
cozinha.
Tommy
correu para o quarto do irmão, bateu diversas vezes na porta. Porém Nicholas
não o atendia, nem respondia. Silêncio. Tommy retornou a sala instigado.
Procurou por alguns empregados da casa, alguns disseram que não viram nada de
estranho por ali. Apenas um, o mordomo, Gunther disse ter visto Nicholas saindo
do porão quando ele chegou.
Emily
chegara à casa. Estava com os primos, Ginger e Rubens. Os dois eram filhos da
irmã mais velha de Isabela, um tinha quinze anos, mesma idade que Emily, e o
outro treze, um ano mais velho que Nicholas e Tommy. Visitavam, ou melhor,
frequentavam diariamente a mansão. Eram poucos os familiares que passavam por
ali, até mesmo pela distância da mansão com a cidade mais próxima. Ginger e
Rubens moravam com a mãe alguns quilômetros da mansão. Não era uma distância
consideravelmente afastada caso se fosse de bicicleta ou de um meio de transporte.
Ficava no mesmo caminho para a escola. Um bairro quieto ali perto, sem muitas
pessoas. Pacato e organizado, de boas pessoas e comércio.
Um
pássaro bateu numa das janelas da mansão, assustando todos com o estrondo.
Correram empregados e crianças para procurar onde ocorrera isto. Nicholas ainda
não saíra do quarto. Trinta segundos depois de terem achado a atrapalhada ave
jogada ensanguentada no chão do segundo andar, dezenas de outras aves começaram
a se arremessar freneticamente sobre as janelas. Algumas quebravam, assim
deixando as outras aves que se atiravam em seguida entrar. Emily correu
apavorada procurando se proteger. Logo a mansão estava cheia de aves. Poderiam
ser pombos, talvez corvos, mas por que abutres? Aquelas aves asquerosas eram
apenas o início.
Catherine
conseguiu guiar as crianças até a biblioteca, onde trancaram-se. Os abutres
dominaram a maior parte dos cômodos, ficavam gritando sons asquerosos. Pousavam
no lustre, nos móveis por toda parte. Subitamente pararam.
Tire-os de lá
Nicholas. Vá! Não tenhas medo. Eu confio que possas fazer isto. Vá Nicholas.
As
palavras não paravam de surgir no livrinho vermelho. Como se alguém conversasse
com ele. Ele chegou a comparar aquilo com uma espécie de meio de comunicação,
talvez mais antigo e surreal. Parecia um facebook ou whatsapp. Contudo ele não
podia responder, ou ainda não sabia como. Então... Simplesmente perguntou: Quem está em perigo, o que está acontecendo
lá fora?
As coisas...
Estão vindo Nicholas... Tudo começará neste dia. Vá rápido e junte-se a eles!
Nicholas
olhava para as palavras, aquilo realmente não fazia sentido nenhum. Aquele
barulho horrível lá fora. Ele agarrou o livrinho e fez a última pergunta antes
de tomar coragem para sair: Quem é você?
Sou a memória
do seu avô. Estou aqui para guia-lo em sua jornada. Nicholas, talvez você seja
o grande escolhido em milênios. Agora vá! Antes que seja tarde... E as
coisas... Venham...
Continua...
(Aviso: História rumo ao fim de temporada.)



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