O Menino Dos Frangos- Quanto a Igreja

Simone Matias - Menino e pássaro
O menino dos frangos
Quanto a igreja
O vento batia nos ramos das pequenas árvores ao redor do templo, era manhã de domingo um pouco antes das sete horas. O ar frio era até que agradável, afinal geralmente o clima é bem quente em Belém. Aquela igreja ali a frente da pequena pracinha, ou menos que pracinha, apenas um espaço com uns poucos bancos, um orelhão e árvores altas, algumas baixas também. Incrível esse tal clima confuso da região, algumas flores nasciam vermelhas (seja la qual tipo), já as folhas da árvore maior caiam amareladas ou em tom castanho e também em laranjas. O templo, ali a frente, estava fechado, mas não por muito tempo. Logo chegariam pessoas, fies, de todas as partes. Aquela igreja era uma tal Assembleia de alguma coisa, tinha várias com o mesmo título no bairro e mesmo pela cidade, estado e por quê não país. O que mudava entre elas eram os subtítulos, geralmente.
O pastor da congregação chegou cedo e viu que Pê, seu mais assíduo membro da igreja, já tinha chegado primeiro e o esperava sentado na calçada sobressalente. Como estava com a cabeça baixa Riverson não percebeu que o menino estava dormindo ali. Sentou ao lado dele e pôs-se a falar. Falou da pintura que talvez fizessem na fachada, falou sobre a Senhora Pitágoras que estava aos prantos por causa da morte do primo, eles eram chegados. E o menino continuava de cabeça baixa, os braços em volta das pernas finas e numa posição um tanto esquisita e nada cômoda. Talvez sua indisposição estivesse enormemente ligada ao fato de não ter jantado na noite anterior, não porque estava de castigo, não por negligencia (pelo menos não do tipo familiar), não porque não quis; não jantou porque, não tinha o que comer.
Uma hora antes, Pê acordara cansado e faminto, seu estomago reclamava a todo instante. Não fazia nem quatro dias que perderam todas as galinhas, talvez fora um mal investimento; não eram administradores. Erik desesperado e com raiva da situação saíra de casa durante a noite, não disse nada ao irmão. Então o dia amanheceu, e la estava um pão endurecido na mesa e um copo de água. Não era muita coisa, é claro; mas fora o que Erik conseguiu na padaria, também conseguira por limpar alguns cantos, que os funcionários não limpariam, um dinheirinho, era bem pouco, mas os alimentaria naquele dia. Pê ainda estava com fome, muita fome. Em outro momento pensaria que seria um ótimo momento para voltar a situação pra Deus e transformar aquilo em jejum, contudo, o animado e sempre altruísta Pê estava cansado e faminto. Aquele não fora o primeiro dia que ficaram nessa situação, as coisas iam de mal a pior.
Pê foi a igreja para a Escola dominical, era sua preferida; sempre ouvia atenciosamente as lições sobre coisas magnificas, como: um reino onde não haverá fome, nem dor, nem tristeza. Era um sonho, outras vezes ele ouvira que para alcançar esse Reino é necessário padecer, pois coisa boa não vem fácil, certo? Assim ele fazia então, queria chegar a esse mundo novo sem desigualdades, onde quem reina é o Pai da Paz, Pai da honestidade, Pai da Vida. Contudo, naquele dia ele estava pouco se importando com cada palavra que o professor dizia, sua barriga roncou quantas vezes? Ele perdeu a conta, seus colegas de classe riram em todas... mas ele não tinha paciência para se importar. Terno e preocupado o Pastor la do púlpito o observava, sabia da triste história que o assolava. Também sabia que Erik perdera a fé, apenas o pequeno ainda vinha a algumas eventualidades da programação da igreja, no entanto, ultimamente, até o menino estava cada vez mais se afastando. Não por falta de fé, mas por falta de coragem de enfrentar os olhos preconceituosos quanto a suas vestes maltratadas, o cabelo desgrenhado, e agora, a barriga roncando.
O pastor Riverson, compadecido, levou Pê a um almoço em sua casa. A família recebeu bem o menino, aquela não fora a primeira vez. Até tentaram pedir a guarda do menino para Erik, mas sabiam que receberiam um não. Entretanto, buscavam uma forma de ajudar aqueles irmãos, as pessoas da igreja não possuíam muitos bens materiais, por assim dizer, em maioria eram de classe média baixa e alguns da alta. Pouco ofereciam em dinheiro a igreja, fazia quanto tempo que não conseguiam o suficiente para ação social? Onde arrecadavam alimentos e roupas usáveis, mas Riverson tinha esperança que isso mudaria. Pê devorava toda e qualquer comida que colocavam em seu prato, não tinha vergonha ou mesuras para escolher o que comer; se fosse comida e não fizesse mal ele comeria com gosto!! Riverson olhava um pouco consternado pela situação do menino, mas feliz por poder dar aquele momento para ele. Os filhos de Riverson, em volta da mesa, tinham a mesma ou eram pouco mais velhos que Pê, logo, divertiam-se com sua irreverencia e tamanho apetite, mas não detinham frescuras ou mesmo julgavam o pobre menino; em alguns momentos tentaram manter o ritmo da colher para a boca que ele fazia, mas desistiram, ele era mais rápido.
Riverson entregou uma vasilha com comida, tinha o suficiente para mais uma refeição e para o almoço do irmão. Pê partiu sorridente, correu feito louco pela rua. Hoje teriam boa comida! Quando chegou em casa, Erik dormia no sofá, acordou-o depressa. Erik nem mesmo perguntou de onde veio a comida, apenas devorou e deixou o suficiente para os dois mais tarde.
¾   Um dia irmão, um dia comeremos do melhor e não precisaremos mais pedir!! Disse Erik, ele tentava não deixar uma lagrima escorrer pelo rosto, mas não só uma como um rio escorreu.
¾   Não se preocupe irmão, eu não pedi. Respondeu Pê.
Erik sorriu para o irmão, lembrou-se do Pastor Riverson que o ensinara a tocar violão; então concluíra que o gentil Pastor, que tanto o aconselhara na infância e muito o influenciou em sua formação tinha dado aquilo a Pê. Anos atrás Erik desistira de aprender a tocar violão, ele já tinha aprendido muito, mas como pensava “Para que tocar um instrumento que jamais vai ter condições de comprar ou ter”. Erik decidiu que iria naquela noite ao culto e agradeceria pessoalmente a Riverson.
De noite, os irmãos pegaram as roupas menos rasgadas, ou que pelo menos não pareciam estar, e arrumaram-se para o culto. Erik sentia algo diferente naquele dia. Chegaram primeiro, só estava Riverson na igreja de joelhos dobrados numa das cadeiras acima do púlpito. Os irmãos, em reverencia a Deus também se ajoelharam, e como há muito tempo atrás Erik orou ao Deus de Israel, aquele que ele tanto confiara antigamente. Pê orava em silencio como sempre, quieto e concentrado. Erik, de repente, conforme as palavras fluíam do seu ser, jorravam na sua mente igualmente como as lágrimas no seu rosto. Estava em prantos, tão emocionado que não dirigiu uma sequer palavra depois que começou a chorar; seus pensamentos apenas tentavam alcançar o infinito divino.
Um moleque adoidado entrou correndo pela igreja. Fora do templo um casal jovem e belo estacionava o carro possante, saíram discretamente e entraram na igreja. A dama estava elegante em um vestido azul, seu perfume exalava rosas e consumia o local para um aroma arrebatador; seu cônjuge enlaçando o braço ao dela caminhava tímido, seu jeito simpático e simples era tão charmoso quanto a gravata azul no terno preto, provavelmente fora vestido no gosto de sua amada. O pequeno Victor, não tão pequeno mas os pais gostavam de achar que ainda era, estava ao lado do Pastor a abraça-lo, tentava puxar conversa. Os pais seguiram para o púlpito e o saudaram, seguindo após para seus lugares ali na frente, do outro lado do salão estavam os irmãos ainda de joelhos dobrados. Erik parara de chorar assim que sentira o cheiro suave de rosas, aquilo o encantara e por alguma razão o animara.
Algumas horas antes, Victor jogava conversa fora com o amigo Leonel. Os dois estavam na varanda com os celulares, mandavam mensagens um pro outro; sim, estavam um a frente do outro conversando por mensagens de texto. A mãe do menino o alertara para se arrumar, ele até tentara convencer o amigo a ir com ele, no entanto os pais dele não permitiam, pois eram de outra crença e não toleravam dialogar sobre qualquer outra coisa fora do que criam. Victor arrumou-se rápido, a mãe sempre deixava a roupa certa em cima da cama. Assim também fazia com o marido, era uma mulher de bom gosto e preocupada com as aparências. Não em exagero, claro.
O culto durou uma hora e meia, Erik permaneceu até o final. Aquilo já era um milagre. Depois do culto conversou com Riverson e o agradeceu, o Pastor desconcertado desviou o assunto e disse que estava precisando de alguém para dar aulas de violão na igreja, o dinheiro não era muito mas certamente ajudaria. Erik tentou se desvencilhar dizendo que não sabia para ensinar, mas Riverson reconhecia seu talento. Afinal, ele o ensinara! Erik acabou aceitando.
Victor conversava com Pê, falou que seus frangos estavam grandes e gordos. Enfatizou que D. Antônia ficaria muito alegre se os visse, então convidou Pê para ir em sua casa. O menino tentou dizer que não, Victor foi tão insistente que ele aceitou. Outro dia iria.
Victor despediu-se de Pê e Erik, depois do pastor Riverson que sorridente como sempre o abraçou. Victor acatou o insistente chamado dos pais para entrar logo no carro, e foram embora. Durante todo o caminho tocaram no radio a música que o coral cantara, e juntos entoavam um coro no carro. Victor errou três vezes a música, todos riram a cada vez. Então começavam de novo, e seguiram nisso até chegar em casa.
Os empregados já tinham preparado o jantar e posto a mesa quando a família chegou. Victor lavou as mãos e foi o primeiro a se sentar à mesa. Toda aquela comida o excitava, lambia os beiços. Seus olhos arregalados admiravam cada saborosa refeição, e ainda nem tinham trazido a sobremesa. Dona Lucinda quem preparara a maior parte, ela aguardava para servi-los, os pais do menino ainda não tinham descido do quarto. Ela brincava dizendo que Victor comeria os pratos se não chegassem logo, o menino respondeu que comeria até a mesa se não chegassem logo! Juntos riram À mesa. Ele tomou um copo de suco, e então pode se segurar até que viessem.

Estava tudo uma delícia como sempre. Dona Lucinda era a melhor na cozinha, Victor sempre dizia e os pais concordavam. Ele foi para o quarto e preparou-se para dormir. Antes do sono o tomar, o pai contou-lhe uma história. Algo sobre uma menina tonta que acreditou num lobo e acabou devorada, que absurdo! Pensava o menino. Quando os pais o deram um beijo de boa noite e saíram, ele adormeceu intensamente, os sabores deliciosos do mundo ainda transbordavam em seus sonhos... as estrelas cobriam juntas o céu naquela noite, não era dia de lua.
Wilson P. Lobo

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