O Garoto e a Flor

O Garoto e a Flor
Os carros buzinavam numa fileira de talvez um ou mais quilômetros de congestionamento. Alguns olhavam fora da janela e xingava, as palavras eram sempre as mesmas, aquelas ofensas passadas de geração em geração quase como uma praga que se alastra e permeia. Num automóvel simples de cor cinza um casal, uma mulher gorda e suada, e um homem barbudo de pelos proeminentes nas axilas, observavam os veículos a frente passarem a sua frente na travessa. O homem se prolongou para fora do carro, pela janela esbravejou uma de suas infâmias juntamente com a frase são mais lentos do que minha mulher na cama. No banco de trás do carro, um menino e uma menina de sobrepeso e rostos rechonchudos entediavam-se a mexer num celular. O menino ouviu o que o pai falara, algo havia de errado na frase, ele ainda não entendia, mas abriu o vidro do carro e bradou igualmente a frase, o pai por algum motivo riu, a mãe o acertou na perna com o jornal enrolado que segurava. A gorda virou-se e acertou um tapa na boca do menino. A menina riu, e não escapou de um tapa também. O sinal abriu e lentamente o carro se moveu juntamente com uma corrente de outros atrás.
Quando o corredor de carros parou novamente, um garoto cuidadoso perpassou entre eles com a intenção de chegar ao outro lado. Um perto dele se moveu, afinal uma pequena vaga de alguns centímetros se abrira e o carro queria preenche-la na esperança que diminuísse seu caminho ao destino. O garoto de cabelos enrolados castanhos parou, olhou para o motorista do carro que estava a sua frente na janela, um rapaz que provavelmente não tirara a carteira a muito tempo, vendo o garoto parado deu-lhe um sinal com o dedo do meio, o garoto não respondeu, rodeou o carro e conseguiu chegar ao outro lado da rua.
Acabara de sair da escola, não muito depois do primeiro garoto surgiram muitos outros atravessando fora da faixa de pedestre, os motoristas buzinaram ainda mais, como se o transito estivesse em algum movimento. No fundo invejavam os pequenos, estavam livres daquele tormento, e provavelmente moravam ali por perto. O garoto de cabelos enrolados entrou numa rua tranquila e silenciosa, passou pela padaria e parou para olhar um instante todas aqueles delicias de doces e salgados, o que mais atraia sua atenção era o pão com recheio e cobertura, era vibrante aos seus olhos, por pouco o cheiro não saía da vidraça e vinha para seu nariz. Seus colegas da mesma escola passaram por ele, entraram por outra rua. Ele continuou seu caminho sozinho.
No céu voava alguns pombos, aterrissavam na fiação de energia, e ficavam a fazer seus típicos barulhos. Um branco chamou a atenção do menino, ele era incrivelmente branco e suas asas eram perfeitamente bem delineadas por penas que se prolongavam até as pontas em formosura inexplicável. Ele olhava para o céu e quase tropeçara e caíra, mas segurou-se num carro estacionado. O céu estava tão azul naquele dia, ele decidiu manter os olhos no chão, foi quando decidira competir com a própria sombra. Correu e pulou por todos os obstáculos à sua frente, na sua imaginação algo o perseguia, possivelmente a sombra. Viu um gato preto esgueirar-se pela grade de uma residência, o pegaria se estivesse mais acessível, mas o deixou e continuou a corrida.
Estava cansado, a sombra o vencera naquele dia, quem sabe em outro ele ganhasse. Respirando fundo passou por uma casa que possuía um jardim formidável, já passara tantas vezes ali e dessa vez ela estava diferente. Havia uma bela e nada simples flor para fora da grade que cercava a residência. Ela o chamava e o atraia. Ele chegou perto e sentiu um aroma agradável. Quem me dera ter uma casa com jardim na frente, coberto pelas mais belas flores. Uma voz lhe falou na mente, era quase audível, mas ele sabia que não era física, mas já tinha ouvido. Foi o que lhe dera impulso para puxa a flor pelo galho e lhe tirar de seu recanto. Sua formosura não se perdera, estava tão linda quanto quando a viu pela primeira vez, mas ele temeu que ela morresse em suas mãos.
Corria desesperado pela calçada, esperou ansioso que os carros parassem de passar para que ele atravessasse a outra avenida. Quando pararam ele caminhou cuidadoso até o outro lado. Entrou na rua de seu destino, viu um pequeno jardim a frente de uma casa, poucas flores se apresentavam nele, mas era bonito. Passou pelo portão e tocou a campainha, uma senhora atendeu e disse já chegou filho? Ele não respondeu, passou rápido por ela e foi até a cozinha. Uma senhora idosa descascava uma laranja à mesa, ele a viu e entregou a flor. Ela o abraçou e beijou, ele sabia desde o início para quem a entregaria.
Wilson P. Lobo

Para: Marina Lobo

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