Snowman

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Snowman

Era um parque encantador nos dias de verão. De primavera. De outono. Mas nunca era no inverno, mas como poderia o frio fazia tremer os ossos. Havia um playground coberto de neve. Um alvo charmoso se não torturante. 
Mas era perto do balanço que eu estava. Nunca tive a oportunidade de saber quem me fizera ali. Uma alma corajosa. Uma criança ou um adulto? Nunca descobri. 
Uma nevasca percorria as ruas da cidade e também do parque, ao meu lado uma árvore sem folhas quase despencara, mas aguentou assim como eu. O tempo esfriava cada vez mais.
Um vento diferente me rodeou, derrubou meu nariz de cenoura e meu olho esquerdo de botão. Ele era o ganhador da minha aposta, eu perdera pois achara que um esquilo roubaria a cenoura. Mas afinal esquilos comem cenouras? Que pensamento de tolo. O vento levava agora a neve a minha volta, minhas redondezas ficavam cada vez mais estreitas. Em breve eu não seria nada. Pensamentos de um tolo novamente, pela primeira vez senti o vento. E o que era aquilo?
A neve escorregou no lado do meu ombro direito e derrubou meu braço de graveto. E foi então que senti o vento no que ficara. Lembro de ter visto uma ou duas pessoas, e agora via o que chamavam de pele ali no lugar do meu braço-graveto. Meus dedos, sim eu tinha dedos agora, mexiam tentando desvencilhar do restante de neve.
Fui ousado pela primeira vez, pus-me a andar e descobri que tinha pernas e pés. E curiosamente nu, mas a gravata no pescoço e cartola na cabeça.

Caminhei por algum tempo testando minhas pernas, cai apenas duas vezes de cara na neve, ora que ironia cai de cara na matéria que me criou. Mas eu sorrira pela primeira e segunda vez na minha vida, uma vez quando cai e outra vez quando levantei. Caminhei por um tempo e encontrei um varal de uma casa, pelo visto alguem estendeu roupas ali e esqueceu-se de tirar. Isso foi meu trunfo. Tomei uma calça azul, uma camisa grossa verde e um casacão por cima. Aquele conjunto parecia condizer com minha gravata e cartola, foi então que vi o mais lindo cachecol colorido de minha vida. Ó como pudera meu criador não me por um, tomei-o também. 
Vestido caminhei pelas ruas vazias, até mesmo sentei-me pela primeira vez. Era um banco duro e ficava de frente a uma loja de brinquedos, que coisas graciosas pensei. Jamais brincara, pudera um boneco de neve ser criança? Que impunidade do meu criador me pensar como adulto. Quase chorei, que ironia, sair água do rosto de um boneco de neve. Mas não era mais eu um boneco, era um homem de roupas emprestadas com barba por fazer.
A nevasca se fora um tempo atrás, e eu estava ansioso para conhecer aqueles que eu me tornei. O primeiro que vi fazia muito tempo, estava num carro e corria apressado, já o segundo era mulher e encolhia-se na calçada enquanto corria. Agora ali, a terceira pessoa se sentou. Uma criança, ó que maldita injustiça! Por que logo o que eu tanto desejara ser me perseguia, desta vez realmente chorei. Recebi um lenço da menina.
-Vc está bem? - ela perguntou.
-Vc tem sorte sabia? - eu disse me lastimando.
-Pq diz isso?- aqueles olhos cor de castanha me sondavam.
-Pq vós pudera ser criança, eu já nasci adulto.
-Ora nasceste adulto! Como pode? Todo adulto já fora criança! 
-Eu sou diferente. - aquele era meu primeiro dialogo e logo se tornara minha primeira discussão.
-Pois bem, minha mãe disse que todos somos diferentes. 
-Pois bem, sua mãe é tola pois não me conhce e me chama diferente, e se por acaso eu não o fosse? E na vdd fosse como ela?
-Aí não sei dizer... - a pequena sorriu. Sorrir parecia ainda mais excitante em outros do que em nós mesmos. Essa seria a alegria de fazer outro feliz? Mas ela estava contente porque eu a confundi? - então eu já vou, minha mãe me disse para não falar com estranhos.
-Pois então agora somos conhecidos.
-Mas nem sabes meu nome!
-Que importa o nome! Ninguém nunca me dera um!
-Poxa... eu o chamo de... senhor da cartola, que tal?
-Poxa... nem sequer ganho um nome, ganho um titulo... mas bem falas, pois um nome é como nos conhecem e assim tu me conheces. Serei o senhor da cartola para ti! -sorri e fui retribuído com outro sorriso. 
Ela partiu minutos depois. Que conversa tivemos, até mesmo ganhei um nome de verdade.
O seguinte que se assentou fora um senhor de idade avançada. Como conversamos! Ele não se mantinha na regra de não conversar com estranhos, ao contrario me disse que os conhecidos é que são o problema. Os conhecidos te abandonam e os estranhos te acolhem. Choramos juntos, mas também sorrimos. Estranhei a forma como ele se foi mancando sem pressa enquanto todos andavam apressados. Um homem que fumava sentou ao meu lado, pedi-lhe que soprasse a fumaça para o outro lado, ele o fez mas senti em sua expressão que não gostara de mim. Perguntou-me se esperava alguém, eu disse que não pois não havia ninguém a quem esperar. Ele pareceu entender o que falei, pois dali em diante conversamos sobre um jogo chamado futebol e outro chamado basquete e até mesmo das damas que passavam, mas a essas conversas eu não me aprofundara.
Ele partiu sorridente, cumprimentou-me com um aperto de mão. E senti sua pele quente.
Uma senhora que andava com os netos me cumprimentou e me ofereceu um chá quente em sua casa que não era muito longe dali. Eu fui, ela parecia uma boa senhora. E era, conversamos horas em sua pequena casa aquecida pela lareira, sinceramente amei aquilo que ela chamara de café, de chocolate e também o chá. Os biscoitos até disputei com seus dois netos. Rimos e nos divertimos, mas foi quando senti-me mal. Despedi-me e desta vez eu parti deixando sorrisos em seus rostos.
Enquanto voltava a meu parque, onde nasci, um carro passou rápido e esbarrou em mim. Fui atirado longe e ele partiu. Levantei-me mas não sorri como da vez que aprendi a cair. Sentia dor, mas decidi continuar. Chegara quase ao amanhecer, não percebi que houvera andado tanto.

Sentei-me no balanço que já descongelara e fitei o horizonte. O sol já nascia e minha pele aquecia. Comecei a balançar-me e fiquei a rememorar minhas boas conversas com a garotinha, o velho, a senhora... e outros que me davam bom dia, boa tarde, boa noite. Esquecia-me aos poucos de cada um deles. Minha pele formigava, o vento levava minha pele que se tornava neve outra vez. E assim me desfiz de tudo o que passei no dia que me tornei humano, mas sentia que o calor do carinho de cada pessoa partia comigo.
Não muito tempo depois o parque estava cheio de crianças e havia diversos bonecos de neve de todas as formas engraçadas e estranhas. Gargalhadas e sorrisos se espalhavam no ar frio. O balanço solitário de antes agora abrigara pequenos e empolgados ocupantes que sempre ambicionavam se balançar até o céu.

By: W. P. Lobo
#Snowman
#FelizNatalWolfs

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