Heart Attack Capitulo V- A Máscara de um Crime


Capitulo V
A Máscara de um Crime
         A bola rolava rápida até se esconder atrás do arbusto, o vento jogou-a um tanto mais pra dentro das folhas. Risadas infantis percorriam o quintal, uma mão afoita, pequena, branca, apalpava adentro o arbusto, tentava de todas as formas encontrar sua bola. Passou bem perto, passou bem longe, quase a tocou, seria impossível se não metesse a cara no meio das folhas e visualizasse onde estava a bola.
¾   Já encontrou, Joe? – disse uma voz aguda feminina.
¾   Não, parece que ela se enfiou aqui dentro e não quer sair.
¾   Deixe-me ver.
         A menina ruiva enfiou o rosto entre a folhagem e encontrou rapidamente a tal bola. Sorriu ao vê-la ali parada num canto desértico de folhas, pegou e assim voltaram ao jogo de atirar um para o outro. Andrew não parecia estar se divertindo muito, mas não parecia estar incomodado com a brincadeira. Até sorriu uma ou duas vezes. Violet apareceu na porta que dava pro quintal, gritou para que os meninos entrassem, alguma coisa sobre sair daqui a pouco e se arrumar logo. Despediram-se de Sendy, a menina abraçou os dois e correu para a casa ao lado, isso era mais fácil com os quintais interligados. Afinal, algumas árvores robustas não era algo que se pode chamar de cerca.
         A movimentação estava menor neste dia, Carl resolvera seu último problema com a máquina de café. Agora, estava esperando Andrew e Joe para a investigação, afinal eram suas únicas testemunhas presentes na cena do crime. Desde que os deixou aos cuidados de Violet não andava dormindo muito bem, por algum motivo aquilo o angustiava; não sabia dizer o porquê. Era uma bela mulher, tinha condições, parecia e exalava uma boa educação, tinha toda a papelada necessária para estar com a guarda dos garotos, o que havia de errado então? Ele não sabia, ainda lembrava-se daquela cena estranha quando foram embora, Andrew o olhava apático, mas Joe parecia pedir para ficar. O olhar do menino chorão estava cativo em uma jaula invisível, quase como um cachorro que fora surrado até a morte. Depois de um tempo ele parecia simplesmente não sentir mais nada, indiferente até a situação ali.
         Elizabeth olhava consternada para fora do berço, nuvens brancas cobriam o céu naquela manhã. A janela deixava uma brisa leve entrar e percorrer o quarto, a menina não parara de chorar desde o ocorrido. A estadia naquela casa estranha com a mulher estranha também não ajudava. Onde estava o colo quente de sua mãe, onde estava o abraço forte e inesquecível do seu pai? Para onde eles foram? Claro que um bebê dificilmente entenderia os mistérios da morte, e muito menos pensaria nos fatos com palavras... mas ela sentia a falta deles. Violet entrou no quarto e a levou, aquelas mãos frias a pegando de novo...
         A casa ao lado permanecia coberta de fitas amarelas, alguns dias atrás surgiram mais alguns investigadores na casa, peritos. Saíram de cenho baixo como se tivessem visto a cena toda em sua frente, eram profissionais, estavam acostumados com sangue, situações amedrontadoras para outros, mas aquela os deixava aflito mesmo que não quisessem demonstrar. Assim a casa ficou vazia e apavorante nos demais dias que decorreram. Violet levou as crianças para sua casa, a do lado.
         Chegaram no horário marcado na delegacia, Violet deixou os meninos com uma policial que os levou a Carl que já esperava na sala de interrogação. O primeiro a entrar fora Joe.
¾   Posso te chamar de Joe?
¾   Sim.
¾   Então Joe, vamos direto ao assunto, já que entendo que você não está muito confortável com tudo isso, mas saiba que é para algo bom.
¾   Ok. – ele estava realmente desconfortável, com aquele bigode cinzento na cara de Carl.
¾   Diga-me Joe, o que você viu e ouviu naquela noite.
¾   Lembro de ir dormir, como sempre meus pais contaram uma história. Os dois juntos, repartiam as partes da história entre si e contavam para mim e Andy, como sempre faziam.
¾   Isso foi quantas horas antes do incidente?
¾   Talvez quatro.
¾   Continue.
¾   Eles nos cobriram e foram embora, como sempre sorrindo e distribuindo beijos. – Joe começara a chorar em algum momento da exposição dos relatos.
¾   Calma garoto, vamos prosseguir com o momento do acontecimento.
¾   Ok. Eu já estava dormindo quando ouvi vozes altas, estavam abafadas, mas dava para entender que eram gritos. Parecia uma discussão, mas não havia ninguém respondendo. Era uma voz áspera e grossa, como a de uma pessoa rouca. Andy dormia quando acordei, ele não percebeu. Pensei que meus pais estavam brigando por causa de alguma coisa...
¾   Eles costumavam brigar?
¾   Não. Por isso fui acordar Andy, ele pareceu assustado quando percebeu os urros. Nós dois andamos devagar pelos corredores, queríamos ver se estava tudo bem no quarto dos nossos pais. A porta estava aberta, estávamos no batente da porta quando gotas de sangue caíram no meu ombro. – o menino parecia estar em estado de choque, mas não parou de contar. – Andy entrou no quarto, estava uma bagunça, as coisas caídas, lençóis rasgados, velas pretas e aquele sangue pingando do teto. Foi nesse momento que olhamos para cima...
¾   Você está me dizendo que os corpos dos seus pais estavam no teto?
¾   Não sei, foi o que vi...
¾   Continue.
¾   Ao lado deles tinham aqueles traços feitos de sangue, não sei o que eram, mas quando falei para Andy recuar os corpos despencaram do teto.
¾   Continue.
¾   Andy e eu saímos correndo, Andy se escondeu no sótão e eu fui ligar para a polícia, depois liguei para o hospital. Essas sempre foram as ordens de nossos pais pra quando acontecesse alguma coisa... Elizabeth... ela... ela ainda estava no quarto, no berço, nem eu nem Andy queríamos voltar lá...
¾   Tudo bem garoto, pode sair.

         Carl jogou-se um pouco para trás na cadeira, sentia uma dor de cabeça pinicando seu crânio. Um enjoo incomodante que durou menos que um minuto, então tirou os óculos e tentou alinhar o raciocínio. Será que havia mais alguém na casa? Chamara Andrew para o interrogatório, mas recebera apenas um breve relato que condizia com o de Joe. Exceto que Andrew não teve pudor, nem mesmo sentimentalismo, Carl preferia pensar que ele estava em estado de choque e ainda não percebera o tamanho do estrago.
Continua

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