O Menino Dos Frangos- Quanto a feira
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| Imagem de Candido Portinari (Quadro Menino Com Pássaro) |
O menino dos frangos
Quanto
a feira
A feira já
estava aberta desde as sete da manhã. Mesmo antes já circulavam algumas pessoas
entre os corredores das pequenas barracas de farinha, frutas, legumes,
castanhas, verduras e muitas outras coisas cujas eram vendidas ali. Os
adiantados geralmente vinham mais cedo querendo fugir do frenético movimento
que começaria assim que abrisse oficialmente o comércio dos feirantes. Alguns
vendedores eram atenciosos com os adiantados, mas outros estavam entre
atendê-los e arrumar suas coisas; não os tratariam mal, pois eram fregueses e
esse era o dever deles, vender. Poucos instantes depois das sete a feira da
bandeira branca estava abarrotada de gente, mesmo aquele não sendo um bom ponto
para uma feira, quer dizer, já fora um melhor ponto.
Havia
pessoas de todos os lados, olhando, mexendo, experimentando; vinham dos bairros
locais e redondezas. Rostos sonolentos, entusiasmados e preguiçosos, e
geralmente de damas de casa procurando os melhores produtos para a família ter
um bom almoço naquele sábado. Entre as vozes de distintas pessoas predominava
aqueles ruidosos aparelhos de som comuns da região; uns fazendo propaganda,
outros tocando musicas do gosto popular, aquelas que também sovam nos bares e
quitandas. Crianças passavam correndo em meio da multidão de adultos, alguns
eram filhos, sobrinhos ou conhecidos de vendedores que os acompanhavam, já a
maioria filhos dos que compravam. Provavelmente estas crianças foram trazidas
para não ficarem sós em casa, de outra maneira não seriam trazidas, pois suas
únicas funções ali era atrapalhar a vida de seus pais e vendedores; não eram
culpados, mas o jeito era ensina-los um pouco que fosse daquela vida no
mercado.
Perto de uma
venda de verduras estava uma senhora estarrecida sentada num caixote, vendia
galinhas e frangos menores. Poucos paravam ali, já que, quem comprasse um
frango dela teria de abatê-lo, pois a senhora não oferecia este serviço. Mesmo
assim ela tinha seus clientes, pessoas que eram de origem rural e que prezavam
por um bom frango caipira, não se importavam em mata-los. Até sentiam
contentamento em relembrar da vida que levaram no campo. Aqueles sabores mais
naturais, saborosos e sem química ou industrialização.
Um moleque
bem vestido passara pelos corredores lotados em tremenda carreira, provocando
um e outro murmúrio. Mesmo assim ele não parava, seus olhos brilhantes queriam
alcançar vista ao seu objetivo no final da passagem. Os cabelos pretos e lisos
antes penteados para o lado, agora, estava uma bagunça sendo levada pelo vento.
Um largo sorriso enfeitava o rosto do travesso. Talvez sua simpatia fora o que
não provocara a revolta das pessoas, já o conheciam bem e sabiam de suas traquinagens.
Ele estava tão enérgico que esquecera os indivíduos a sua volta, não se
incomodara nem com aqueles que acenavam ou davam bom dia. Parou esbaforido a
frente da venda de franguinhos da velha senhora, seus olhos fitavam-na ainda
animado, ela o fitava séria e indiferente. O moleque de mais ou menos doze anos
puxou um caixote debaixo da bancada onde a velha colocara a gaiola com os
frangos; ele sentou-se nele e a espiou vender um, dois e três frangos a uns
fregueses que chegaram uns instantes antes dele. Recuperara o ar que perdera na
corrida.
¾
O que foi garoto, o que tu queres? A senhora perguntou assim que
os fregueses saíram.
¾
Sabes o que quero. Respondeu o menino.
¾
Também sabe que não te darei um de graça, Victor.
¾
Eu sei e por isso eu trouxe dinheiro, dona Antônia.
¾
Então podemos fazer negócios, garoto. Disse Dona Antônia sorrindo.
¾
Que tal aquele amarelinho...
¾
O pintinho? Sempre leva os maiores, o que te deu hoje para levar
um filhote? Perguntou D. Antônia instigada.
¾
Queria algo mais... Mais... Fofa hoje. Respondeu Victor.
¾
Acho que estás pretendendo alguma coisa... Disse a velha
desconfiada. Mesmo assim te venderei, essa é minha função, trouxestes a caixa.
¾
Sim, está aqui na minha mochila. Disse o garoto logo tirando uma
caixa de sapatos cheia de furos da mochila.
Dona Antônia
o ajudou a pegar o pintinho e a coloca-lo na caixa, colocou junto um pouco de
ração. Victor olhava pelos buracos o bicho, como sempre curioso e animado. A
velha o olhava com ternura, decerto ele era seu freguês mais fiel. Ela sabia
que o moleque não levava os frangos para comer, tampouco para maltrata-los; em
outra conversa ele falara do galinheiro que tinha feito com o pai. A mãe do
garoto quase os expulsara de casa, dona Antônia só pode rir da descrição da
cena: uma mulher fina e elegante chegando à sua casa arrumada, saindo ao
quintal para ver o que seus dois amados homens faziam então se depara com um
fétido galinheiro. Victor contara que ela não os importunara mais nos últimos
dias, mas ainda não concordara.
A
movimentação e negociações na feira iam aumentando cada vez mais ao decorrer do
dia. O menino permanecera jogando papo fora com Dona Antônia por trinta minutos,
até perceber que estava atrasado para a natação. Deixou o seu filhote de frango
ali com a dona e partiu. Correu em direção ao outro lado da rua, ele se
despedira as pressas da velha amiga. Chegando a sua aula recebera logo uma bronca
pelo atraso, arrumou-se no vestiário e saíra para a aula junto aos colegas.
A água
estava fria, assim como o clima naquela manhã. Seus braços magros remavam numa
tentativa de reproduzir o que o professor ensinara. Os outros estavam à frente
dele. Luiz o passara dando um tchauzinho desdenhoso, provocando-o a tentar com
mais determinação. Os cabelos lhe escapavam da touca. Parou e ajeitou e logo
outros três garotos o passaram. Decidido que nada mais o distrairia começou a
nadar em direção aos outros que já quase chegavam ao fim da piscina. Com a
determinação que estava não notou o barulho da ambulância a alguns metros dali.
Ele não conseguira ganhar dos outros, pelo contrário chegara por ultimo e não
conseguira nadar da forma ensinada pelo professor. Saíra desanimado da piscina,
jogou longe a touca e sentara-se numa cadeira próxima a piscina. Aquele
desconforto de estar de sunga o distraíra das advertências do professor, o sol
também não ajudava. Se antes estava frio, agora o oposto se instalara. Victor
olhou para o céu e reparou nas poucas nuvens em volta da brilhante bola
calorenta. Estava tão azul o céu naquela manhã, logo a aula terminaria.
Aproveitou o
vazio da rua e a atravessou correndo. Victor chegou ao ponto de Dona Antônia,
ela não estava mais ali. Seu Drummond o informou do infortúnio que ocorrera com
a velha. Uma parada cardíaca, não fora à primeira, mas essa foi grave. A
ambulância não chegara tão rápido, mas a levara ainda respirando. O homem de
barba branca entregou ao garoto a caixa com o pintinho. “Ela pediu que lhe
entregasse isso” disse Drummond.
Victor foi
embora tristonho. Chegara a sua casa, aquela imensa casa no condomínio fechado.
Não era um dos melhores condomínios de Belém, mas diziam que o governador já
morara ali; talvez apenas boatos. Apertara a campainha e logo o empregado o
atendera e abrira a porta dando saúdas ao menino. Sem responder o menino
adentrou na casa. Carregando apenas a caixa nas mãos, pois deixara a mochila
jogada na sala, correu ainda mais em direção ao quintal. Longe da casa, ao fundo
do quintal ele parou. Ali ficava o galinheiro feito por ele e o pai, seus
frangos contavam quatorze e agora o mais novo, então quinze. Tirou o pequeno da
caixa e o colocou junto as galinhas e galos. Passou pelo portão de madeira
pintada de branco, assim como o restante do cercado. Foi até o galinheiro, uma
casinha mais fechada onde dormiam os bichos. Ali se encontrava a primeira
galinha que o garoto comprara, estava chocando cinco ovos. Vez ou outra o
menino passava ali para observa-la.
Cansado de
cuidar dos frangos, trocar água suja por limpa, limpar aqui e acola, jogar o
milho para comerem, resolveu passar o restante do dia jogando o vídeo game que
ganhara por insistência.
No sábado
seguinte, Victor passou pela venda de Dona Antônia e não a encontrou. Nem no
outro. Já fazia um mês e nenhuma noticia de Dona Antônia, os feirantes não lhe
contavam ou não sabiam. Foi no mês seguinte que obteve uma resposta. Um rapaz e
um garoto mais ou menos da idade de Victor arrumavam as coisas no lugar onde
antes ficara Dona Antônia vendendo seus frangos. Victor reparou no mais novo,
já o tinha visto antes com a velha. Estava saindo da aula de natação, passou
correndo para o outro lado e percebeu que eles arrumavam a gaiola envelhecida
de Dona Antônia. Parou de ante deles e perguntou quem eram. O mais velho o
olhava com cara de poucos amigos.
¾
Eu o conheço Erik, é ele o garoto que a vovó sempre falava. O
menino dos frangos. Disse o mais novo.
¾
Hum, então esse é o mais fiel comprador de vovó. Declarou o mais
velho tirando a carranca do rosto.
¾
Sim. Dona Antônia é a avó de vocês?
¾
Claro!
E o que
houve com ela, por que estão aqui?
O mais novo
olhou para Erik com pesar.
¾
Eu conto Pê. A nossa vó morreu no hospital naquele dia que teve
uma parada cardíaca, aliás, ela teve mais duas no hospital. Era inevitável.
Victor
sentou-se no caixote que sempre estava abaixo da bancada. Conversaram sobre
algumas coisas, logo estavam entrosados e desviaram o assunto tão pesado.
Victor partiu depois que os ajudou a arrumar a gaiola no carrinho de mão.
Erik e Pê
caminharam pelo acostamento até chegar a sua velha e pobre moradia de madeira.
Erik passou a chave para o irmão que desceu a escada que ia parar ao fundo na
porta da residência. Ele abriu a porta improvisada e voltou para trazer a
gaiola com o irmão. Erik tinha vinte e dois anos, tentara
permanecer na escola a todo o custo, mas as dificuldades só aumentavam a todo
mês. Pelo menos Pê podia estudar. Por isso fora tão drástica a morte da avó,
ela era a única mantedora da casa. Erik conseguia vez ou outra um bico como
pedreiro, mas não ganhava muito sendo auxiliar. Agora substituíra a avó na
venda de frangos, graças a Deus, a velha ensinara Pê a cuidar dos bichos, pois
ele não sabia nada.
Pê soltou no
quintal os três frangos que restaram. Ali estavam os vinte e poucos frangos que
ainda lhes restavam, o que fariam quando não os tivessem mais? Logo teriam de
comprar umas galinhas, tinham muitos galos ali. Talvez fosse hora de vender os
ovos ao invés de comê-los. Erik jogou os trocados ganhos na venda do dia sobre
a mesa, pegou no velho armário o caderno de anotações da avó e começou a
contabilizar os gastos com comida, mais frangos para procriar e a conta de
água. Só tinham a preocupação de contas com a fornecedora de água, há uns três
anos tinham se decidido que ter luz era luxo. Erik animou-se quando notou que
sobraram uns trocados depois de separar para os gastos. Deu-os ao irmão que
logo os guardou num porquinho de fundo quebrado.
Pê voltou
para perto do irmão e perguntou o que comeriam, a resposta era obvia. A mesma
refeição dos outros dias: um pouco de feijão, arroz e um ovo. Talvez o ovo
desaparecesse do prato quando começassem a vendê-los.
Wilson P. Lobo



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