Tributo



Tributo
Halloween, esta época costuma causar horrores nas mentes mais fracas. Porém, para a família Roble esse dia é muito mais do que bruxas passeando em suas vassouras. Seus corações amolecem, as emoções estão à flor da pele nesta data; um terror assola suas mentes.
Um ano atrás o casal Diana e Frances perdera sua filha primogênita num terrível acidente na estrada. A única cuja ficara para consolá-los fora a pequena Catherine, de oito anos de idade.
         A família passa este Halloween em um cemitério deixando flores na tão prematuramente partida Eveline. Para alguns conhecidos dos Robles isso causara arrepios, no entanto o que poderiam fazer? Aquele também não era um dos melhores dias.
         Antes daquela mórbida visita ao tumulo de Eveline, no dia anterior, Catherine teve  um sonho, ou pior, um pesadelo. Neste, a pobre garota via Eveline, sua irmã, a sua frente a fita-la com olhos frios e tristes. Descia longas mechas de cachos desfeitos pelo rosto de Eveline, ela nem se comparava a tão animada irmã viva de Catherine. Eveline permeava-se ali parada a observá-la, ao longe Catherine ouvia gritos desesperados. Despertou de repente, viu dali da cama à porta do seu cômodo aberta, algo estranho, pois estava trancada na noite anterior. Talvez fora um dos pais que abrira.
         Assim que retornaram do cemitério, mesmo não tendo coragem alguma para comer ou fazer qualquer outra coisa, os Robles foram almoçar. A comida já havia sido pronta bem cedo por Diana, porque não queria ter de preparar coisa alguma nas condições emocionais que sabia que estaria quando voltasse. Frances jogou-se no sofá da sala, enquanto aguardava pela esposa cuja arrumava a mesa. Seu jeito jovem de reagir a tudo, não ajudara muito nessas situações. Mesmo seu grande humor para piadas se perdera naquelas condições, era um homem infeliz. Não tinha certeza de superar aquilo.
         Quando estavam à mesa, Catherine decidiu contar seu pesadelo. De inicio percebeu um expressão assombrada no rosto dos pais, depois eles voltaram ao normal, ou o que seria normal o suficiente naquele momento.
¾    Besteira filha, sua irmã está descansando em paz junto a sua avó.
Nem a própria Diana acreditava em suas palavras. Quem era ela para insinuar algo como o céu ou mesmo o inferno? Na ultima vez em que esteve em uma igreja tivera um briga calorosa com o bispo da tal. Assim, nunca mais freqüentara qualquer entidade religiosa, nem ao menos tocara em uma bíblia há anos.
Catherine após o almoço saíra com umas vizinhas de sua idade. Quando regressara ouviu os pais conversando na sala, não entrou de uma vez. Esperou e ouviu parte do dialogo.
¾    Não acha que ela deve saber?
Frances tinha uma expressão de medo e desespero no rosto. Seja La o que fosse era de tamanha importância.
¾    Mas ela é pequena demais. Duvido muito que vá entender – disse Diana com o olhar distraído – não pôde nem entender a visita dela... – um ruído atravessa a sala chegando aos ouvidos do casal.
Frances foi até a porta e a abriu. La fora estava sua filha fitando-o  aturdida.
¾    É feio escutar atrás da porta a conversa dos pais, filha. – disse Frances meio simpático, contudo seu olhar era incisivo. Havia grande pesar na sua expressão, nem aquele sorriso maroto podia disfarçar.
¾    Perdoe-me papai, prometo não fazer mais.
¾    O que ouviu querida?
¾    Não pude compreender o que mamãe quis dizer com visita.
Diana olhara a filha com angústia, estava escondendo algo fúnebre. O pai puxara Catherine para dentro e fez-la sentar no sofá. Concordando com a cabeça os dois decidiram terminar aquele mistério perturbador e revelar de vez o que escondiam da filha.
¾    Filha, há mais de uma semana... Como posso dizer isso – Frances parou de falar procurando a melhor forma de dizer o tal segredo –, há mais de uma semana estamos tentando chamar sua irmã.
¾    Mas ela está morta papai, não é?
Diana decidira tomar iniciativa e explicar tudo sucintamente.
¾    O que queremos dizer, filha, é que durante um tempo estamos procurando meios de falar com Eveline, seja La onde ela estiver. Procuramos em vários livros, encontramos alguns modos de falar com mortos – a voz de Diana beirava a alucinação. A respiração estava pausada, sua tez estava pálida e cansada –, ontem à noite em um dos rituais dos livros, conseguimos ver Eveline – sua face mudou. Frances também mudou de humor. Estavam preocupados. – mas ela desapareceu e logo em seguida você estava gritando no quarto.
Catherine empalideceu. Recordou-se imediatamente do pesadelo que tivera com a irmã.
¾    Corremos para o seu quarto – continuou Frances desta vez – vimos, assim que abri a porta, Eveline acima de você na cama. Aquela criatura não era nossa filha. Não era sua irmã – Frances, agora ele estava neurótico, seus olhos esbugalhados de pavor – tinha se apossado da forma física de Eveline, mas não era ela... Não era ela... – ficou repetindo a mesma frase constantemente. Não podia mais falar nada, estava em pânico. “ Não era ela”
¾    Calma Frances dará tudo certo. –  ela segurou a mão de Frances.
¾    Mas então, o que fizeram? – perguntou atormentada Catherine.
¾    Desfizemos o ritual. Peguei aquele cordão de caveiras e o parti. Então a criatura sumiu deixando-a em paz, filha. Você desmaiou, não quisemos acordá-la, por isso a deixamos dormindo. Nesta manhã, depois que voltamos do cemitério, você nos contou seu pesadelo.
¾    Então, os gritos que ouvi...
¾    Eles eram seus, filha.
Poderia toda aquela história absurda ter acabado ali. Contudo ainda havia mais a ser dito. Frances ainda revelou que para o ritual era necessário um tributo, e este fora a alma de Diana. Era tudo inacreditável, como a garota poderia entender tal atitude desesperada dos pais.
Um tributo havia sido feito, e a troca seria Eveline. Entretanto o que retornara do sombrio mundo das trevas não fora a tão querida Eveline. Seja La o que fora invocado não iria descansar enquanto não levasse o que fora tratado.
Frances abraçou a filha. Quando abriu os olhos avistou atrás dela aquele ser demoníaco transmutado na doce e linda Eveline. O ser desapareceu causando pânico nos Robles.
Diana puxou a filha e Frances a seguiu para a porta da casa. Ao tentar abri-la Diana não pôde algo a bloqueava.
O clima no exterior da casa começara a se tornar pesado. Uma garoa começou a cair. As crianças cujas pediam doces nas portas dos domicílios da vizinhança corriam de um lado a outro, tentavam-se proteger da chuva. O céu escureceu, as janelas da residência dos Robles embaçaram-se.
Catherine e os pais procuraram em cada canto da casa uma saída, no entanto todas estavam seladas. Diana olhara para fora da casa, vira La no externo o dia escurecer instantaneamente. Não sabiam o que fazer. Não tinham para onde ir. Pra onde correr? Como se esconder?
A culpa é minha? Pensara Frances.
Diana deu então a ideia de voltar a sala e tentar encontrar qualquer coisa que fosse útil naqueles livros. Folhearam livro após livro. Inexplicavelmente aquele ser das trevas não aparecera novamente.
Inoportunamente faltou luz. Catherine desapareceu. Tentaram procurá-la, mas estava um breu impermeável à visão. Frances encontrara uma lanterna velha de pilhas quase acabando.
¾   A culpa é minha, querido, minha... – choramingou Diana enquanto soluçava.
¾    Tudo que queríamos era vê-la mais uma vez. Por ironia a vimos, mas não era ela... – Frances não conseguia manter um padrão de racionalidade estável.
Catherine surgiu repentinamente. Diana a abraçou, sentindo um frio intenso no corpo da menina. Afastou-se. Frances pôs a falha luz da lanterna no rosto da garota. Catherine não era mais a mesma, seu olhar era tenebroso. Os olhos azuis fora substituído por um vão negro e profundo, a pele estava pálida e sem vida.
¾    Você está bem filha? – perguntou aos prantos Diana.
Catherine, ou fosse La o que fosse aquilo virou o pescoço fazendo-o estalar a cada volta.
¾    Sua filha não está aqui ­– disse o demônio que dominara o corpo da pobre garotinha. Sua voz era rouca, tensa.
¾    Então quem é você seu demônio do inferno? –  bradou Frances.
O maligno ser riu elevando a cabeça para cima. Sua risada mesclava um choro infantil e uma gargalhada grossa e desdenhosa, estava brincando com eles.
¾    Você já disse meu nome, mas se quiser saber mais teremos que nos tornar mais íntimos – o demônio piscou com aqueles olhos sombrios, que antes fora tão meigo de Catherine.
Todas as janelas se abriram subitamente. O vento forte entrou espalhando todos os livros pelo chão, os cabelos de todos arrepiavam-se. Depois se fecharam novamente.
Eles só podiam vê-la por causa daquela vacilante luz da lanterna. O demônio resolveu atacar, sumiu da frente da lanterna  numa velocidade incrível. Reapareceu no teto, caminhava aos estalos das articulações do pequeno corpo de Catherine. Parecia estar no chão, para ele não existia gravidade. Pare! Deixe-os em paz. Por favor!  Falava desconexamente o ser das trevas.
¾    Cale-se! Não pode salva-los. Nunca saíra daí! – disse a criatura maligna, gargalhava convulsivamente.
Pulou no chão, de forma desengonçada andou a frente em direção a eles. Os dois abraçaram-se perdendo qualquer esperança de escapar. O demoníaco ergueu a mão e Diana fora arremessada por uma força desconhecida ao teto, sentia seus pulmões serem pressionados. Estava sem ar. Labaredas de fogo rodearam a sala, fazendo clarear a sala com uma luz amarelada cintilante. O rosto de Frances era inexpressível, ver a esposa a ser morta por aquela criatura diabólica fora o fim para sua sanidade.
Diana foi descida uns poucos metros do teto. Aquele que possuía Catherine fechou as mãos, simultaneamente Diana fora esmagada por aquela força satânica. Seus ossos estavam expostos, da boca escorria coágulos de sangue. O corpo logo ficara coberto por sangue. Catherine levara a mão em direção ao fogo e o corpo da mãe acompanhara o movimento e queimara nas chamas. Deixe-nos em paz  pensou Frances, mas já era tarde demais. Não havia voltas.
Frances fora assassinado do mesmo modo que Diana, impiedosamente.
O céu voltou a brilhar. As crianças saiam dos seus esconderijos. Um ou outro vizinho observava sem reação a casa dos Robles pegar fogo. Chamaram os bombeiros, chegaram quinze minutos depois.
Ainda dentro da casa, Catherine estava desacordada no chão. As chamas a rodeavam mais não a tocavam.
A menina foi levada ao hospital. Semanas depois quando acordou teve um ataque histérico e atacou os enfermeiros. Meses após vários incidentes ela fora mandada a uma clinica psiquiátrica, estava incontrolável. Ela era esquizofrênica, costumava falar sozinha, em geral era sobre futuros assassinatos. Aquilo provocara medo em quem a ouvia. Tinha imenso prazer em se ferir, por isso colocaram uma camisa de força nela.
Anos depois, quando tudo parecia ter sido esquecido e o estado mental de Catherine Roble era estável, ela foi liberada da clinica. Então, amparada por uma tia e marido, compadecidos. Foi para a casa desta.
Catherine os matara dias depois de chegar a casa. Quando a policia chegou, a jovem estava numa banheira se banhando no sangue dos tios e dos primos de quatro e cinco anos. Os corpos foram dilacerados de tal forma que nem mesmo a pericia pôde explicar.
Esta era sua maldição. Carregar o demônio aonde fosse, era o tributo pago pela mãe. Catherine não dormira mais. Todas as noites o demônio a visitava transfigurado em sua irmã Eveline. Conversavam sobre outros assassinatos. Mesmo sendo levada ao hospício novamente, vez ou outra tinha a oportunidade de sair para o pátio com os outros transtornados, era neste momento que atacava e  tranquilizava a cede por sangue daquele ser maligno. Se quisesse viver, teria de alimentá-lo. Socorro! Ainda gritava a voz da verdadeira Catherine dentro daquele corpo dominado.

Wilson P. Lobo

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